Título: Início precoce ao fumo preocupa
Autor: Claudia Bojunga
Fonte: Jornal do Brasil, 15/02/2005, Saúde & Ciência, p. A12
Estudo mostra que 75% dos adolescentes que fumam compram cigarro sem qualquer repressão
A volta às aulas - que ocorreu efetivamente ontem, depois do longo feriado de carnaval - relembra aos pais de adolescentes algumas preocupações. É justamente nessa faixa etária que muitos jovens começam a fumar e uma parte deles, infelizmente, acaba dependente do cigarro. A escola acaba funcionando como ponto de difusão da tendência.
Uma pesquisa feita em 12 capitais brasileiras, de 2004, coordenada pelo Instituto Nacional do Câncer - com base em plano da Organização Mundial de Saúde (OMS) - revelou dados alarmantes. O principal é que 75% dos adolescentes que fumam compram cigarros sem qualquer repressão no comércio.
Além disso, o levantamento (Vigescola) mostrou que um terço experimenta antes dos 12 anos. Em Vitória e Boa Vista, por exemplo, quase 40% o fazem até com 11 anos.
- É um sinal de alerta, pois quanto mais cedo se começa a fumar maiores são as chances de desenvolver a dependência ao tabaco - afirma Liz Almeida, chefe da Divisão de Epidemiologia do Inca.
Entre os alunos já considerados fumantes regulares (mais de 100 cigarros consumidos, o padrão da OMS para a dependência), o estudo revelou mais alto percentual em Palmas, 41%, seguido de Porto Alegre, 37% e Goiânia, 35%. Todos dependentes e que terão dificuldades para largar o vício, além de estarem sujeitos a risco de terem câncer e outras doenças.
O acesso muito fácil dos estudantes ao cigarro deixa os especialistas alarmados:
- É um absurdo, na idade em que são proibidos de comprar cigarro, três quartos dos meninos o fazem livremente - alerta Liz - Percebe-se que há muito a fazer em matéria de execução da lei - acrescenta.
O estudo, que ajuda na criação de políticas públicas, também constatou que o tabagismo em casa foi maior entre jovens fumantes do que entre os não fumantes, reforçando a influência na iniciação. A maior taxa foi observada em Porto Alegre, onde 66,4% dos jovens que fumam têm pais fumantes.
A participação da mídia em relação ao consumo do tabaco também foi analisada. Apesar da proibição da propaganda na televisão e nas revistas no Brasil, desde 2001, a porcentagem de alunos que tinham visto anúncios pró-tabaco nos 30 dias anteriores à entrevista é elevada. A taxa varia de 70,5% em Palmas a 87,3% em Porto Alegre. Nos pontos de venda ainda é permitida a publicidade.
De acordo com os pesquisadores, uma estratégia mais agressiva da indústria é a oferta de cigarros por representantes das companhias aos adolescentes. Em Fortaleza esse índice foi de 14% e, em Boa Vista, 13%. Além disto, observou-se que de 4 a 12% possuem objetos com logomarca de cigarros, forma perene de propaganda.
- Embora aparentemente seja baixo, o dado é escandaloso porque isso não deveria acontecer em caso algum - realça a médica do Inca.
A pesquisa mostra ainda que, em geral, a experimentação de cigarros é maior no sexo masculino do que no sexo feminino. Só em Curitiba e Porto Alegre houve uma inversão dessa relação. Acredita-se que isso está relacionado ao fato de a plantação de fumo ser predominante no Sul do Brasil. O alto poder aquisitivo da região também é considerado fator de influência. O Inca levanta ainda como hipótese para o crescimento do tabagismo entre as adolescentes nessas cidades a busca da igualdade com os meninos.
- Mas é preciso destacar que não temos isso comprovado, é apenas uma hipótese - assinala Liz Almeida.