Título: Sombras do próprio lar
Autor: Marco Antônio Martins
Fonte: Jornal do Brasil, 15/02/2005, Rio, p. A13
Pesquisa inédita realizada pela Fiocruz em parceria com a UFRJ revela influência dos pais no consumo de drogas pelos jovens
Aos 15 anos, X., atualmente com 35, via sua irmã beber e usar drogas dentro de casa. Seu pai agredia a mãe, que anos depois se tornou alcoólatra. Hoje, ele tenta se curar do vício pela cocaína com o tratamento que faz desde agosto no Conselho Estadual Antidrogas (Cead). O rapaz viveu em um ambiente comum à maioria dos dependentes em drogas no Rio. Uma pesquisa realizada por profissionais da Universidade Federal do Rio de Janeiro e da Fundação Oswaldo Cruz mostra que a família é quem mais influencia o vício. Durante um ano, pesquisadores se debruçaram sobre 3.672 atendimentos realizados pelo Cead entre 1999 e julho de 2004. Nesses cinco anos, o conselho atendeu um total de 13.352 pessoas. A pesquisa inédita estudou apenas esses 3,6 mil casos de forma qualitativa. Deste total, 1.971 eram homens e 73% deles foram influenciados por algum integrante da família. Das 1.701 mulheres, 83% sofreram essa influência. O pai aparece como a principal figura que acaba levando os jovens ao vício.
- Não quer dizer que ele fica com a garrafa ou com o baseado na mão incentivando o consumo. Mas, ele é visto em casa consumindo apesar de a família tratar o assunto como tabu e não comentá-lo - explica a psiquiatra Ana Cristina Saad, da UFRJ.
Ela cuidou do levantamento, patrocinado pela Fundação de Apoio à Pesquisa do Estado (Faperj), junto com a pesquisadora Márcia Carvalho, da Fundação Oswaldo Cruz. A influência do pai sobre os homens beira os 48,7% dos casos, enquanto sobre as mulheres ficou em cerca de 45%. Na ordem, as preferências estão com o álcool, a cocaína e a maconha.
O relatório que será concluído nos próximos dias definirá uma mudança no tratamento aos dependentes em drogas no Estado do Rio. A família receberá uma maior atenção no momento em que o viciado procurar por tratamento. Pais, mães e irmãos serão integrados às palestras. Da mesma forma que tem o poder de influenciar e levar esses jovens à dependência, a família é vista pelos especialistas como o principal caminho para a retirada deles do vício.
- Os parentes têm que ser envolvidos neste processo. A maioria desses jovens mora com os pais e pode receber a ajuda deles. Não adianta tratar esse assunto de forma isolada - acredita a pesquisadora Márcia Carvalho, da Fiocruz.
Neste perfil, 79,5% dos dependentes ainda moram com os pais. No período em que procuraram tratamento, eles estavam, em sua maioria, desempregados (62,4%), com apenas o ensino fundamental (62%).
- Antes desse trabalho pensávamos que os amigos eram quem mais influenciava os dependentes. Não é isso. Mais do que nunca precisamos pensar em realizar uma grande política estadual de prevenção às drogas - defende Murilo Asfora, presidente do Cead.
Asfora pretende a partir de agora, com o relatório nas mãos, reunir assistentes sociais, psicólogos e psiquiatras do Cead para decidir quais estratégias colocará em prática nesse atendimento às famílias e aos jovens viciados.
- Precisamos investir em medidas preventivas nas escolas públicas. E quem sabe nas particulares também. É atingir o maior número de pessoas para combater o problema - conta Murilo Asfora.