Título: Pelo fim da fome e da especulação com alimentos
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Fonte: Jornal do Brasil, 06/06/2008, Economia, p. A17
FAO promete ação contra indigência que afeta 100 milhões de pessoas
A declaração final da cúpula sobre segurança alimentar que a Organização das Nações Unidas (ONU) para a Alimentação e a Agricultura (FAO) propôs em Roma foi aprovada, ontem, com os compromissos de eliminar a fome do mundo e de não utilizar os alimentos como um instrumento político e econômico.
O diretor-geral da FAO, Jacques Diouf, avaliou que os resultados obtidos após a cúpula sobre segurança alimentar estiveram "à altura das expectativas". Diouf se mostrou muito satisfeito por ter havido um consenso que permitiu a aprovação de uma declaração, apesar de o texto ter recebido críticas de países como Argentina, Cuba, Venezuela, Equador, Bolívia e Nicarágua, que condenaram a falta de medidas reais para a erradicação da fome no mundo.
Após a aprovação do texto, Equador, Nicarágua e Bolívia se uniram às críticas de Argentina, Venezuela e Cuba, mas o presidente do plenário impediu que as delegações se manifestassem.
A representante equatoriana disse que "são muitos os países que não estão de acordo" com a minuta da declaração, embora nenhum tenha bloqueado a aprovação do documento, com exceção da Argentina, que fez objeção ao texto inteiro.
Na declaração, os líderes dos países que participam da cúpula voltam a se comprometer com a erradicação da fome no mundo e a não utilização dos alimentos como um instrumento político e econômico.
Cuba ataca os EUA
O governo cubano acusou os Estados Unidos de serem o "único país que se opõe ao direito à alimentação" e disse que os americanos são os "principais responsáveis" pela frustração das expectativas que a comunidade internacional pôs na cúpula sobre alimentos da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura.
A delegação de Cuba declarou que o documento final da cúpula "é o resultado da falta de vontade política dos países do norte para propor uma solução justa e duradoura à crise alimentícia mundial".
Os cubanos afirmaram ainda que o texto precisa de um diagnostico "medianamente objetivo sobre as causas essenciais da fome no mundo". Os cubanos também criticaram o impacto dos subsídios agrícolas e "o controle monopolista da distribuição dos alimentos que é a ruína de muitos agricultores no sul". Segundo Cuba, é "evidente" a responsabilidade das potências industrializadas "neste inaceitável estado de coisas".
A delegação cubana qualificou a cúpula da FAO como "representação demagógica e oportunista" e disse que não pode fazer parte disso. Os cubanos ressaltaram, no entanto, que não se opuseram ao consenso por acreditarem que pode ser um passo no processo de erradicar a fome no mundo.
Documento final
A minuta também reitera que é "inaceitável que 850 milhões (de pessoas) continuem desnutridas", e destaca o "esforço constante" que a comunidade internacional fará para erradicar a fome. Os 193 países que integram a FAO, no entanto, se comprometeram a reduzir "à metade, até 2015", o número de pessoas que passam fome no mundo, segundo os termos da declaração.
A reunião de cúpula da FAO conseguiu recolher mais de US$ 6,5 bilhões para combater a fome no mundo, anunciou em Roma o senegalês Jacques Diouf. Segundo a ONU, 850 milhões de pessoas sofrem de desnutrição e a crise de preços dos alimentos arrastou outros 100 milhões para a indigência.
Convocada pela ONU, junto com as demais agências das Nações Unidas, o Banco Mundial (Bird) e o Fundo Monetário Internacional (FMI), a reunião de cúpula, que contou com a participação de 40 chefes de Estado e de governo, teve como objetivo analisar os efeitos da alta do preço dos alimentos na nova onda de fome que se observa no mundo.