Título: Sarkozy quer Brasil também no G8
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Fonte: Jornal do Brasil, 08/07/2008, Economia, p. A17
EUA discordam do presidente francês logo no primeiro dia da reunião realizada no Japão
O presidente da França, Nicolas Sarkozy, defendeu a expansão do Grupo dos Oito (G8), integrado atualmente pelos países mais industrializados e a Rússia, com a inclusão de nações emergentes, entre elas Brasil e México. Em Paris, durante o fim de semana, Sarkozy já havia dito que "não é justo nem razoável" que apenas oito países se reúnam para discutir os problemas do mundo. Em entrevista publicada ontem pelo jornal japonês Yomiuri, Sarkozy disse que o G8 deveria promover o diálogo com as nações emergentes do G5, que é integrado por Brasil, China, Índia, África do Sul e México.
A opinião não conquistou o apoio dos EUA. Pelo contrário, logo no primeiro dia da reunião de cúpula anual do G8 ¿ o grupo dos sete países mais industrializados do mundo mais a Rússia, na ilha de Hokkaido, no Japão ¿ o governo dos Estados Unidos expressou sua oposição a uma ampliação do G8 para incluir a economias emergentes, como foi defendido pelo presidente francês, Nicolas Sarkozy. A mesma oposição foi adotada pelo primeiro-ministro italiano, Silvio Berlusconi.
¿ É algo que não acreditamos que seja necessário neste momento ¿ disse o porta-voz do Conselho de Segurança Nacional da Casa Branca, Gordon Johndroe, após a inauguração da cúpula anual.
O porta-voz disse que o sistema atual já permite a incorporação nas sessões do G8 de outros países, não havendo a necessidade de alterar o formato.
¿ Existem as economias emergentes, que se chamam emergentes mas que são muito mais que isso, e neste G8 manteremos com eles um encontro de um dia inteiro ¿ disse Berlusconi. ¿ Há a hipótese de Sarkozy de estender o G8 a esses países, argumento que ainda não foi discutido. O examinaremos, mas penso que a maioria quer manter este formato, que tem a vantagem de não ter um número de presenças excessivas permitindo assim falar de modo franco e direto.
Berlusconi falou que pode ser realizada após a cúpula uma reunião fixa com as outras cinco economias importantes, que são, segundo ele, Índia, China, África do Sul, México e Brasil.
Alimentos dominam
No primeiro dia de cúpula, a atual crise dos alimentos, com o crescimento da demanda e dos preços, dominou a pauta. Os biocombustíveis foram novamente tratados como peça-chave da crise, mas com ressalvas para o produto feito à base de cana.
Apesar dos esforços do governo brasileiro para convencer a comunidade internacional do contrário, os biocombustíveis continuam na lista dos vilões da alta nos preços mundiais de alimentos. Tanto o presidente do Banco Mundial, Robert Zoellick, como o secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), Ban Ki-Moon, atribuíram parte da culpa pela inflação alimentar ao produto.
¿ Diversos fatores afetaram os preços, mas não há dúvida de que os biocombustíveis estão entre eles ¿ disse Zoellick, que fez questão, no entanto, de diferenciar os combustíveis produzidos com cana-de-açúcar, como o álcool brasileiro, dos que são feitos com cereais e vegetais.
O ex-secretário de comércio dos Estados Unidos lembrou que cerca de três quartos do crescimento da produção de milho nos últimos três anos foi para a produção de álcool nos Estados Unidos.
Uma das missões do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em Hokkaido será, justamente, tentar isentar de culpa a produção de biocombustíveis. A exemplo do que fez na semana passada durante a Cúpula do Mercosul, na Argentina, Lula deve jogar a culpa na especulação financeira e cobrar dos países do G8 que parem de comprar safras ainda nem plantadas nos chamados mercados futuros.
Juntos, Bird e ONU pediram ao G8 "resultados, e não mais promessas", ressaltando que a crise pode levar 100 milhões de pessoas em todo o mundo para baixo da linha de pobreza. As entidades se referiram especialmente à difícil situação econômica vivida na África, que ocupou ontem os debates do primeiro dia da cúpula.
Ban Ki-Moon pediu ao G8 que não volte atrás nas promessas que fez em cúpulas anteriores, e advertiu que o desenvolvimento da África requereria ajudas no valor de ao menos US$ 62 bilhões para o combate às doenças infecciosas.
Mais 100 milhões na miséria
A alta dos preços dos alimentos ameaça reverter todos os avanços globais com desenvolvimento e levar 100 milhões de pessoas em todo o mundo para baixo da linha de pobreza, advertiram nesta segunda-feira o secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), Ban Ki-Moon, e o presidente do Banco Mundial, Robert Zoellick. A declaração de ambos foi feita durante a reunião anual do G8.
Ban e Zoellick cobraram dos países do G8 uma ação urgente para combater a atual crise e para prevenir futuras altas dos alimentos. Segundo o secretário-geral da ONU, o mundo enfrenta três crises simultâneas e interligadas ¿ dos alimentos, do clima e de desenvolvimento ¿ para as quais são necessárias soluções integradas.
¿ A ONU está pronta para ajudar. Todo dólar investido hoje equivale a 10 amanhã ou 100 no dia seguinte.