Título: Gravações desmontam versão de Protógenes
Autor: Quadros, Vaconcelo
Fonte: Jornal do Brasil, 18/07/2008, País, p. A16

O homem que há uma semana atraía a atenção do país por colocar na cadeia o poderoso banqueiro Daniel Dantas, ontem saía do paraíso para ingressar no inferno. Trechos da gravação sobre a reunião ocorrida na última terça-feira em São Paulo, destinada a avaliar a crise, demonstra que foi o delegado Protógenes Queiroz quem, em nome da carreira profissional, optou por afastar-se da Operação Satiagraha.

A gravação mostra, ainda, Queiroz elogiando seus superiores ¿ o superintendente da PF em São Paulo, Leandro Coimbra, o diretor Roberto Troncon Filho e o diretor-geral Luiz Fernando Corrêa ¿ afirmando que não faltou apoio logístico e, no final, dizendo que não retornaria mais ao caso depois de concluir o curso superior de polícia, que ele e outros 119 iniciam na próxima segunda-feira em Brasília.

O áudio de quase três horas não significa que a direção da Polícia Federal não quisesse o delegado fora do caso. Mas desmonta a versão apresentada por Queiroz e que obrigou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva a sair de seu gabinete para desfazer uma teoria de conspiração, segundo a qual, o governo estaria pressionando pelo afastamento do delegado de investigações que chegavam à ante-sala do Palácio do Planalto. Ciente de que tudo estava sendo gravado, Queiroz é o que mais fala durante a reunião.

¿ Falhou-me o controle ¿ disse ele, ao se referir ao vazamento que o coloca como suspeito e alvo de um inquérito criminal aberto na Polícia Federal.

Em outro trecho, delegado afirma que deve "100%" do sucesso da operação a Troncon, Coimbra e Corrêa.

¿ Não pretendo presidir nenhuma investigação ¿ diz ele, depois de optar por concluir o curso superior na Academia de Polícia de Brasília. Na gravação fica claro que foi o delegado quem não quis continuar no caso.

Na única ponderação, Protógenes Queiroz tenta criar uma alternativa inviável: sugere que durante os 30 dias em que terá de fazer o curso sobre gestão em segurança poderia despachar no inquérito aos domingos, mas seus chefes observam que isso traria prejuízo legal às investigações e que ele teria de optar entre permanecer à frente do inquérito ou pelo curso, que exige tempo integral. Se alternasse seu tempo em as duas atividades, o delegado poderia provocar contestações jurídicas por parte da defesa de Daniel Dantas. Além disso, poderia causar constrangimento aos suspeitos ao marcar interrogatórios para os domingos.

O delegado prometeu durante a reunião encerrar hoje o inquérito em que Dantas é acusado de lavagem de dinheiro e pela tentativa de suborno ao delegado Vitor Ferreira. Na polícia há expectativa sobre o teor do texto que o delegado produzirá. Mas será a última atuação de Queiroz no caso. Na segunda ele inicia o curso em gestão em segurança que, entre outras matérias, trata das novidades sobre crimes financeiros edireitos humanos. (V.Q.)