Título: Lobbies internos são maior barreira ao consenso na rodada
Autor: Camarão, Rodrigo
Fonte: Jornal do Brasil, 20/07/2008, Economia, p. E1
Argumentos racionais têm pouca serventia. Críticas nos moldes das que apontam o subsídio como motor da ineficiência econômica não produzem efeitos quando se trata de Doha. A questão, claramente, não se deve à falta de clareza sobre as vantagens econômicas. O que prevalece nos bastidores das negociações é a pressão feroz dos grupos que defendem interesses de determinados setores da economia, que protagonizam o financiamento das campanhas políticas.
¿ É claro que os negociadores americanos sabem que o etanol de cana-de-açúcar é mais eficaz do que o etanol de milho, mas o lobby do setor garante a manutenção do produto na pauta americana ¿ diz Eduardo Felipe Matias, sócio da L.O. Baptista Advogados e doutor em Direito Internacional.
Igualmente cética é a posição de Rubens Barbosa, consultor de negócios e ex-embaixador do Brasil em Washington. A descrença foca a complexa conjuntura política do cenário. Os Estados Unidos têm eleições em breve e um Congresso protecionista. Na Europa, a eleição do presidente da França, Nicolas Sarkozy para a presidência do Conselho da União Européia pelos próximos seis meses reforça a dura postura francesa na questão agrícola. Países em desenvolvimento ¿ como Índia, China e Argentina, têm estreita margem de negociação nos setores industrial e de serviços.
¿ Acho que os países estão se esforçando, mas os problemas não são da área técnica, mas sim de dificuldades políticas desta conjuntura. Mesmo que se chegue a um acordo, o texto obtido em Genebra não será aprovado pelo Congresso americano. O governo Bush não tem a maioria. E nenhum outro país vai ratificar porque não se sujeitaria aos humores dos congressistas americanos ¿ diz Barbosa.
Como saída, o diplomata brasileiro defende a mudança de estratégia comercial.
¿ Hoje, temos o samba de uma nota só, que é Doha, o que é um equívoco. Devemos aprofundar acordos bilaterais e rever as regras do Mercosul, para que os países negociem cada um por si até que a situação evolua e façamos convergir as tarifas de cada nação ¿ opina.
¿ Se Doha não avançar, mostrará que a opção por estas negociações foi equivocada ¿ diz Sérgio Amaral, ex-ministro da Indústria e Comércio e diretor do Centro de Estudos Americanos da Fundação Armando Álvares Penteado (Faap).
O não-alinhamento automático com o Mercosul também é defendido por Paulo Baia, economista e professor da PUC-SP.
¿ Política comercial é pragmática, não deve se guiar por princípios estritos. Fazer comércio é diferente de alinhamento político. A política comercial brasileira não deve ter de ser regionalizada, não tem que ser pautada por um viés político ¿ diz.
Baia compartilha da busca de uma nova orientação política por parte da chancelaria brasileira, mas não a considera um erro na totalidade.
¿ O Brasil precisa investir no comércio multilateral e fez bem em apostar em Doha. Acredito que é positivo continuar insistindo porque não podemos fechar este caminho.
Indústria
O texto preparatório do setor industrial, elaborado por Don Stephenson, foi bem recebido pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).
¿ O texto, do jeito que está, é muito bom. Não é fechado, abarca tudo aquilo que os negociadores precisam decidir e as distâncias de posições. Um acordo é factível ¿ acha Mário Marconini, diretor de negociações internacionais.
O setor é alvo das investidas dos países desenvolvidos como Estados Unidos, Japão e União Européia, que querem vantagens como contrapartida para as concessões na área agrícola.