Título: Americanos não contam com acordo em Genebra
Autor: Camarão, Rodrigo
Fonte: Jornal do Brasil, 20/07/2008, Economia, p. E1

Para ex-integrantes do governo Bush, negociação está morta.

"Está Morta". Este é o diagnóstico, sobre a Rodada de Doha, feito por Grant Adonas, subsecretário do Comércio do governo George W. Bush, até 2005. Como ele, oito analistas ¿ entre parlamentares de ambos os partidos americanos, economistas independentes e ex-negociadores do tratado, ouvidos pelo JB nos Estados Unidos e Europa ¿ também mostram pessimismo para a Reunião Ministerial que tratará do assunto na Organização Mundial do Comércio.

¿ Os negociadores estão há sete anos nesta história e continuam empacados nas conversas sobre modalidades e tarifas (fórmulas e coeficientes de reduções de taxas e subsídios nos diversos setores econômicos). Não estão sequer falando sobre um acordo ¿ lembra Grant.

"Na verdade, os países em desenvolvimento, especialmente os mais pobres, reclamam com razão de que são obrigados a suportar maior da carga de redução de tarifas", diz o economista Raj Patel, autor do livro Stuffed and Starved sobre a diferença entre países em comércio exterior. "Por exemplo: os países industrializados querem maiores reduções em taxas alfandegárias de bens industriais e de serviços, do que àqueles que estão dispostos a dar para os produtos agrículas. Na última proposta, em rodada de abril passado, as fórmulas e coeficientes propostos pela União Européia, Estados Unidos e Japão, principalmente, são ainda menores do que aquelas negociadas anteriormente para os produtos agrículas. Assim não há acordo".

Mas não são apenas as fórmulas e coeficientes que emperam um acordo, como lembra Bobby Rush, democrata de Illinois e chairman do subcomitê de Comércio, Mercado e Proteção do Consumidor, na Câmara dos Representantes dos Estados Unidos.

¿ O governo Bush está acabado. Tem quatro meses até as eleições, e depois dois meses até deixar a Casa Branca. Neste período, o Congresso está quase em recesso, pois muitos legisladores estão lutando por sua própria sobrevivência política. É necessário saber quem terá a maioria no Congresso (e espera-se que sejam os democratas, que desejam novos padrões de acordos de livre comércio) e de quanto será a diferença. Também precisamos ver quem vencerá as eleições presidenciais. Agora, do modo como estamos, não será possível acertar qualquer acordo. Cabe ao Congresso aprovar ou não um tratado comercial. E isso não irá acontecer. Duvido que o presidente Bush tenha cacife político para sequer apresentar uma proposta de acordo. Esta reunião ministerial na OMC não irá apressar qualquer negociação. O próximo presidente e o próximo Congresso é que vão tratar disso ¿ diz.

O professor Robert Reich, ex-Secretário do Tesouro americano durante o governo Bill Clinton, nota que as preocupações do país estão em outras dimensões:

¿ Nos últimos 10 dias, o Irã fez testes com mísseis. O barril do óleo cru aumentou novamente. Nos últimos quatro dias, os clientes de bancos na Califórnia correram para retirar suas economias de instituições financeiras no Estado. Há temor sério de uma corrida aos bancos ao nível nacional, com 21 instituições financeiras em perígo. Ninguém está pensando em comércio livre antes da posse do novo presidente. Mesmo que um acordo fosse assinado antes das eleições e sancionado pelo atual Congresso ¿ o que é impossível ¿ isso não ajudaria em nada na baixa do preço de combustíveis e num melhor equilíbrio do mercado financeiro. Estas são as preocupações americanas no momento. A Rodada de Doha, só terá novo capítulo importante em 2009, ou até 2010.

E para completar o coral de pessimistas, o presidente frances Nicolas Sarkozy ¿ que ocupa o cargo rotativo da presidência da União Européia ¿ tirou um número mágico do colete de protecionismo agrícola e jogou pá de cal na reunião da OMC:

¿ Acordo de redução de tarifas agrícolas implica na perda de 100 mil empregos. Não vou deixar que isso ocorra ¿ disse, mês passado.

O economista Charles Morovick, do Instituto Internacional de Comércio de Nova York, resume:

¿ Quem for à reunião ministerial da OMC vai perder a viagem.