Título: Caracas: Bogotá faz jogo dos EUA
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Fonte: Jornal do Brasil, 22/01/2005, Internacional, p. A8
Vice-presidente e ministro do Interior venezuelanos acusam Colômbia de tentar desestabilizar o presidente Hugo Chávez
BOGOTÁ E CARACAS - O vice-presidente José Vicente Rangel e o ministro do Interior Jesse Chácon, ambos do governo venezuelano, acusaram ontem a Colômbia de trabalhar por uma ''campanha dos Estados Unidos'' contra o presidente Hugo Chávez. As declarações fazem parte da tensão estabelecida entre Bogotá e Caracas, desde que os colombianos assumiram a detenção do líder das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) Rodrigo Granda, que foi capturado em dezembro, na capital venezuelana.
Sob o carimbo do Plano Colômbia, Bogotá está entre os três governos que mais recebem ajuda financeira da Casa Branca no mundo. O Plano tem o objetivo de combater a guerrilha e a produção de drogas no país.
Sobre ''o caso Granda'', Washington enviou ontem, segundo informou o Itamaraty, um documento ''não-oficial'' aos países da América do Sul no qual apresenta a posição americana, favorável a Bogotá.
O ministro venezuelano do Interior acusou a Colômbia de assumir a política de ''guerra preventiva'' de Washington e de querer impor a prática à América Latina. Caracas afirma que a Colômbia violou a soberania venezuelana para capturar Granda em Caracas.
Ontem, o governo venezuelano recebeu de Bogotá uma lista com nomes de sete rebeldes das Farc e um do Exército de Libertação Nacional, que estariam na Venezuela.
Entre os rebeldes listados estão ''Gabino'', apelido de Nicolás Rodríguez Bautista, chefe máximo do ELN - o único desta organização incluído - e Luis Edgar Devia Silva (''Raúl Reyes''), do ''secretariado'', o comando das Farc. Reyes é considerado o ''chanceler'' das Farc, por dirigir a chamada Comissão Internacional da guerrilha, comitê ao qual pertencia Rodrigo Granda.
Os documentos entregues a Caracas incluem as fotografias dos oito guerrilheiros, assim como o prontuário ou antecedentes penais de cada um deles, que enfrentam acusações ou foram condenados por homicídios, atos terroristas, seqüestro e rebelião, entre outros crimes.
- A nós, venezuelanos, interessa esclarecer a situação. Terroristas há na Colômbia, a guerrilha está na Colômbia. Guerrilheiros e terroristas não estão na Venezuela - protestou o vice-presidente venezuelano.
O governo colombiano advertiu, no último dia 16, que enviaria a Caracas provas sobre a presença de guerrilheiros, assim como de acampamentos, em regiões da Venezuela.
Segundo autoridades em Bogotá, a detenção de Granda ocorreu em 15 de dezembro em Cúcuta, cidade que faz fronteira com a Venezuela, dentro de uma operação que incluiu o pagamento de uma recompensa estimada em US$ 350 mil.
A Venezuela, no entanto, afirma que Granda foi seqüestrado dois dias antes em Caracas, por efetivos dos dois países e com o suborno de autoridades locais. Chávez exigiu que Bogotá oferecesse desculpas e uma retificação pública, o que não ocorreu. Enquanto isso, Caracas mantém suspensos os acordos e negócios com Bogotá.
O líder venezuelano, que vai enfrentar protestos em Caracas - marcados para o domingo -, confirmou ontem a presença no Fórum Social Mundial, em Porto Alegre, no fim do mês.