Título: Terrorismo à espreita
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Fonte: Jornal do Brasil, 22/01/2005, Editorial, p. A10
A sabatina no Senado da futura secretária de Estado americana, Condoleezza Rice, evidenciou uma atenção inédita à América Latina e, em especial, ao Brasil. A ênfase, contudo, não se resumiu às relações econômicas. Sublinhando os brasileiros como parceiros-chave dos Estados Unidos na região, a audiência de Rice mostrou também que a chamada tríplice fronteira (Brasil, Argentina e Paraguai) é hoje motivo de preocupações comuns das autoridades dos dois países. Serviços de inteligência americanos e brasileiros identificaram, por exemplo, que a região tem sido utilizada por organizações terroristas para levantar ou lavar dinheiro. As operações na área envolveriam o que um funcionário americano classificou como ''um rico casamento entre drogas e terrorismo'', segundo o qual lucros de algumas transações se destinariam a organizações terroristas - inclusive a Al-Qaeda, de Osama bin Laden. A tríplice fronteira da América do Sul estaria servindo ainda como ponto de passagem e até mesmo como ''colônia de férias'' de terroristas. São constatações perturbadoras para a segurança e para a economia da região.
Com essas preocupações, os Estados Unidos aumentaram o número de agentes naquela área. A Agência Brasileira de Inteligência (Abin), por outro lado, triplicou o contingente de investigadores presentes na tríplice fronteira. Embora oficialmente o Itamaraty negue a existência de evidências comprobatórias da presença de grupos, indivíduos ou de células adormecidas, o Brasil está empenhado na identificação e no desbaratamento dos focos de financiamento do terrorismo. Uma disposição que merece enfáticos elogios.
Trata-se de uma reação às exigências de uma sociedade crescentemente insegura pelas ameaças de terroristas e traficantes de drogas e armas. Ao Brasil convém começar a trabalhar com a hipótese de transformar-se em palco de futuros ataques. Não é uma probabilidade remota.
As principais nações-alvo - como EUA, China, Japão e boa parte dos países europeus - estão hoje controlando as fronteiras com notável vigor. Têm conseguido, assim, neutralizar possíveis atos do inimigo. Restarão aos extremistas buscar representantes desses alvos em outras regiões - como embaixadas, consulados ou filiais de grandes empresas. O Brasil precisa estar preparado se este momento chegar.