Título: Denise definirá se é céu ou inferno
Autor: Falcão, Márcio
Fonte: Jornal do Brasil, 10/06/2008, País, p. A3

Oposição joga suas fichas no depoimento da ex-diretora da Anac para acertar Dilma Rousseff.

Brasília

O cenário está pronto. Amanhã, na Comissão de Infra-Estrutura do Senado, a oposição lança mão de todas suas fichas para conseguir artilharia pesada para atacar a chefe da Casa Civil, ministra Dilma Rousseff. A munição deve partir de cinco dos sete convocados para dar esclarecimentos na comissão sobre a venda das companhias aéreas Varig e Varig Log. As atenções, no entanto, estarão voltadas especialmente para o estopim da crise, a ex-diretora da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), Denise Abreu.

A ex-integrante da agência reguladora acusa a ministra de ter pressionado o órgão a deixar de lado exigências legais e favorecer a venda para o fundo norte-americano Matlin Patterson e três sócios brasileiros. Na avaliação da oposição, outros quatro depoimentos podem colocar a ministra de volta à berlinda, depois do caso do suposto dossiê contra tucanos no escândalo dos cartões corporativos.

Um dos esclarecimentos mais esperados é do ex-procurador da Anac, João Ilídio Lima Filho, que assinou um parecer mostrando a dispensa, por parte da agência, da análise da declaração do Imposto de Renda e a verificação da origem do dinheiro dos sócios e a participação de cada um - exigências feitas pela Superintendência de Serviços Aéreos (SSA). Tucanos e democratas querem saber de quem partiu a orientação para ignorar as normas.

Confirmação

A expectativa é de que outros dois ex-diretores da Anac Leur Lomanto e Jorge Velozo confirmem aos senadores a denúncia de Denise e de que o ex-procurador da Fazenda Manuel Felipe Brandão conte de como o governo procedeu depois que ele se posicionou contra o fato de os compradores da Varig se livrarem de uma dívida tributária de R$ 2 bilhões.

Os oposicionistas dizem que a audiência de amanhã será para sentir a temperatura de até onde as denúncias podem chegar.

¿ As acusações são assombrosas, mas estamos cautelosos porque precisamos que ela (Denise) confirme com toda a firmeza o que tem dito à imprensa ¿ diz o senador Demóstenes Torres (DEM-GO).

¿ Já tivemos outros casos em que ex-integrantes do PT, como o Silvinho Pereira (ex-secretário-geral do PT), que apontou um esquema de fraude envolvendo a cúpula do partido, falou e voltou atrás. Então, vamos sentir a temperatura para depois fecharmos o cerco.

Do lado governista, os líderes alinhados com o Palácio do Planalto esperam desviar o foco sobre as acusações contra a ministra com os relatos do ex-presidente da Anac e petista, Milton Zuanazzi e do juiz da 1ª Vara Empresarial do Rio de Janeiro Luiz Roberto Ayoub, que devem defender a legalidade da venda. Ayoub conduziu o processo de falência da Varig e monitorou a venda das companhias aéreas para o fundo Matlin Patterson.

Os governistas, inclusive, já preparam um arsenal de perguntas e até questionamentos sobre a postura da ex-diretora da Anac. A idéia é levantar suspeita sobre a credibilidade das acusações. Um dos principais argumentos é de que por trás do ataque de Denise está uma retaliação ao governo. Isto porque há uma sindicância aberta desde setembro passado pelo ministro da Defesa, Nelson Jobim, para investigar a conduta dos ex-diretores da Anac.

Sobre Denise pesam as acusações de que teve dezenas de passagens pagas pelas empresas aéreas TAM e Gol na época em que passou pela agência. Outra cobrança contra Denise será o fato da denúncia acontecer uma semana após sua intimação em processo a que responde por improbidade administrativa na Justiça de São Paulo. Denise e Zuanazzi são acusados de apresentar um documento sem valor jurídico ao Tribunal Regional Federal da 3ª Região para obter a liberação da pista do Aeroporto de Congonhas antes do acidente com um Airbus da TAM, que resultou na morte de 199 pessoas em julho do ano passado.

¿ É preciso deixar claro que ela (Denise) pode ter outras intenções com estas denúncias ¿ reconhece o líder do PMDB no Senado, Valdir Raupp (RO).