Título: Doha não sairá a qualquer preço
Autor:
Fonte: Jornal do Brasil, 17/06/2008, Internacional, p. A21

Ministro se diz confiante na conclusão da Rodada de Doha,mas não a todo custo.

»Perfil

Celso Luiz Nunes Amorim Nascido em 3 de junho de 1942, em Santos (SP), atua como ministro de Relações Exteriores do Brasil desde 2003. Já o havia sido no governo Itamar Franco, entre 1991-95.É pós-graduado em ciência política em Londres e casado e pai de quatro filhos

Camila Arêas

Rodrigo de Almeida

Um dos responsáveis pela presença contínua do Brasil em muitas das esferas de decisão internacional, o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, comemora a boa imagem do país - para o ministro, fruto da diversificação diplomática e comercial. Perto de entrar para a História como o ministro que mais tempo chefiou o Itamaraty - mais de 9 anos no total, comparando-se ao barão do Rio Branco·- Amorim acredita que a Crise mundial se estancou e insiste na conclusão,¿agora ou daqui a dois anos", da Rodada de Doha, a negociação internacional destinada a reduzir as barreiras comerciais entre os países. Nesta entrevista ao JB, o ministro afirma que o embargo americano a Cuba "é um anacronismo" e ressalta que a eleição de um republicano à Presidência dos EUA não é necessariamente benéfico ao Brasil por seu histórico de menor protecionismo. Segundo Amorim. ,o protecionismo vigente hoje e agrícola e, neste caso, ¿não é o partido, mas o Estado de onde vem o líder que pesa mais".

Como o senhor analisa a candidatura de Barack Obama à Presidência americana?

- Vejo com o pensamento de Pascal: o coração tem razões que a razão desconhece.

Como assim?

- E preciso equilibrar a razão com o coração. A era da diplomacia de gabinete, de maquiavéis, já passou .

Mas, na prática, o que uma nova administração mudará na relação com o Brasil?

- As declarações de McCain e Obama são muito positivas em relação ao Brasil. A nossa política não será alterada. Os republicanos são historicamente mais favoráveis ao livre comércio, mas não podemos separar o que é melhor para o Brasil do que é melhor para o mundo. Além disso, essa distinção mudou um pouco. O protecionismo hoje não é mais tanto na área industrial, onde os democratas sempre foram muito protecionistas por causa da relação com os sindicatos, e sim na área agrícola. Nesse terreno, não é o partido, mas o Estado de onde o presidente pertence que pesa mais.

O que podemos esperar em relação ao embargo a Cuba?

- Ainda que não tenha tocado no embargo, Obama falou sobre as remessas de dinheiro. Mas qualquer declaração neste período deve ser tomada com grande ressalva porque está pautada em cálculo eleitoral. As mudanças em Cuba já estão ocorrendo. O Brasil percebeu isso rapidamente, a União Européia está percebendo, e os EUA também irão. Isso virá naturalmente porque o embargo é anacronismo. Não funciona, nem vai funcionar .

A transição cubana exercerá grande peso no jogo mundial dos próximos anos? - Sem a Guerra Fria, certamente não terá o significado global que teve até o fim dos anos 80, mas para política regional, será importante. O Brasil está tendo uma postura de aproximação efetiva, empresarial, comercial. Acho que terá um papel positivo na transição, nunca para intermediar diálogo, porque os cubanos têm capacidade e orgulho suficiente para dialogar, mas nossa atitude acaba influenciando. Não posso ter a presunção de que a posição do Brasil tem impacto direto na União Européia, mas falei sobre o tema e eles ouviram com atenção.

Estamos próximos do fim do embargo?

- Não é possível fazer previsão precisa. Mas vai ser tema predominante nos próximos dois, três anos.

O governo Lula foi muito Criticado por um suposto anti-americanismo do Itamaraty. Essas críticas se tomaram ainda mais comuns com a busca de diversificação dos parceiros internacionais do Brasil. O Itamaraty estava certo? O senhor ainda ouve críticas?

- Nós sabíamos que daria resultados. Não ampliamos os parceiros latinos e africanos por preferência ideológica, mas porque era do interesse do Brasil e da região. E deu certo. Aí alguém diz "deu certo porque teve sorte". Eu digo: deu certo porque escolhemos o lado certo. .

O Brasil é continuamente elogiado pela imprensa internacional. Em que medida essa imagem positiva é fruto da diplomacia presidencial, do Itamaraty ou simplesmente do ambiente mundial favorável? .

- Não posso dizer que tudo é obra da diplomacia. O Brasil está na crista da onda. A economia está crescendo, a inflação está controlada, estamos descobrindo petróleo e o país é grande produtor de energia limpa. Outro dia, me perguntaram: "O Lula tem sorte?" uma série de fatores, mas a diplomacia certamente contribuiu.

O Brasil, a Índia e a África do Sul eram democracias multi-étnicas e multiculturais, mas não tinham se descoberto mutuamente. A diplomacia vai criando isso. Se a África fosse considerada um país, por mais artificial que seja dizer isso, seria o quarto parceiro comercial do Brasil só abaixo dos EUA, Argentina e China. A América do Sul absorve 20% das nossas exportações, os EUA é menos de 15%.

A onda favorável vai resistir à crise internacional? Muitos dizem que a sorte do presidente Lula, está para acabar .

- Ter sorte dá muito trabalho (risos). E os dados são consistentes o Brasil vai continuar crescendo. Não a 10% porque essa fase de crescimento tipo chinês, o Brasil teve há 30, 40 anos atrás. A etapa pela qual a China esta passando agora, com transferência massiva de mão-de-obra do campo para a cidade, da economia de subsistência para o mercado, tudo isso o Brasil já teve.

O presidente George Bush pediu ontem ao Brasil mais concessões nas áreas de indústria e serviços para avançar a conclusão da Rodada de Doha. Como o senhor responde à idéia?

- Se fizéssemos com os produtos industriais o que eles fizeram com a agricultura,estaríamos na cadeia. O Brasil tem uma economia muito

aberta e não tem comércio com nenhum país predominante, por isso precisa do sistema multilateral. Recorremos ao sistema de resolução de controvérsias na OMC (Organização Mundial do Comércio) e ganhamos o caso do algodão contra os EUA e do açúcar na UE. A Rodada não teria avançado o que avançou se o Brasil não tivesse dado estes passos. O que não se pode é cobrar dos países em desenvolvimento um preço irrealista pelas concessões a fazer na agricultura, especialmente nos subsídios agrícolas. Até porque, não adianta nada o Brasil aceitar e a Índia e a Argentina, não. O Brasil tem obrigação de buscar uma conclusão que atenda a todos esses países.

Está satisfeito com o ponto ao qual a Rodada chegou?

- Não estou. Queremos concluí-la. Não tenho a menor dúvida de que vai ser concluída, agora ou daqui a dois anos, e embora eu tenha essa certeza íntima, os mercados podem não ter, o que teria influência negativa na economia mundial e seria prejudicial ao Brasil. Mas não se pode ter a ilusão de que pela Rodada ser importante ao Brasil, vamos compra-la a qualquer preço. Isso não. Quando se diz que o Brasil tem a chave da negociação, é lisongeiro, mas todo adulador vive às dispensas daquele que o escuta. Somos cuidadosos. O Brasil tem presença que deriva de sua economia e peso, mas também de sua - capacidade articulação. Disso não tenho a menor dúvida. O Japão tem enorme participação na economia internacional e o Brasil, relativamente pequena. Na OMC, é o Brasil que tem enorme participação e o Japão, pequena. Como é possível? Isso se deve a nossa -capacidade de articulação; de escutar os outros e de traduzir isso numa plataforma comum.

O senhor disse que Lula estaria disposto a assinar um acordo de certificação ambiental. Na questão amazônica, como isso seria usado?

- Caberia um selo para não usar terra da floresta, por exemplo, para a produção do etanol.

Há evidências, reveladas nas últimas semanas, sobre as facilidades de um estrangeiro comprar terras na Amazônia. São denúncias graves.

- Na realidade; a nossa lei não proíbe nem,sequer que pessoas físicas comprem terras, apenas tem de ser residente no Brasil. Temos de ter um controle do Estado bem claro em projetos de desenvolvimento sustentável. Já sugeri, no passado, que houvesse um grupo interministerial que olhasse para a aquisição de terras por estrangeiro, para examinar tudo o que existe.

Como estão as articulações para que o Brasil ocupe um assento no Conselho de Segurança (CS) da ONU? Ainda está otimista?

- Eu dizia uma frase do Brasil que se confirmou. Eu era pessimista no

curto prazo e otimista no longo prazo. O CS é um processo complexo e não vai mudar apenas porque um grupo de trabalho da ONU fez uma proposta nova, mas quando a percepção do mundo mudar sobre o que é necessário para levar adianta a governança mundial e esta percepção está se formando. Assessores de Obarna, McCaill, Nicolas Sarkozy e Gordon Brown já comentaram. O Brasil não irá para lá defender só seus interesses, mas dos países em desenvolvimento em geral. -Até se tiver de fazer voto de desconfiança estamos prontos.