Título: De que morreu Doha?
Autor: Matias, Eduardo Felipe P.
Fonte: Jornal do Brasil, 03/08/2008, Economia, p. E2

A causa mortis oficial da Rodada Doha foi a incapacidade de superar o impasse entre Estados Unidos, Índia e China a respeito da adoção de salvaguardas especiais para a agricultura. Porém, como ocorre algumas vezes com vítimas de acidente, ainda que sobrevivesse a esse problema, dificilmente Doha superaria outras complicações que iriam surgir. Entre elas, o choque inevitável entre países que se recusam a diminuir seu protecionismo agrícola, como a França, e nações, como a Argentina, que resistem a reduzir suas tarifas industriais. E, mesmo que todos esses obstáculos fossem superados na negociação, dificilmente o acordo seria aprovado por diversos Parlamentos nacionais, notadamente pelo Congresso dos Estados Unidos, dominado pela oposição democrata. Os argumentos para que a rodada chegasse a bom termo não eram poucos. O mundo vive sob a ameaça de recrudescimento da crise financeira norte-americana, e o sucesso de Doha poderia representar uma barreira contra a retomada do protecionismo ­ é importante lembrar que a OMC provém do Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio (GATT em inglês), que surgiu para combater a onda protecionista do pós Segunda Guerra Mundial. Além disso, enfrenta-se hoje uma explosão dos preços dos alimentos, e é razoável supor que a maior abertura dos mercados e a redução dos subsídios à agricultura nos países ricos poderiam levar a um aumento na produção dos países pobres e à maior oferta geral de alimentos. Nenhum desses argumentos, no entanto, prosperou. O fato é que, iniciada como uma "Rodada do Desenvolvimento", longo prazo junto à opinião pública, principalmente aquela dos países ricos. Sem conquistar "corações e mentes", será difícil promover algum dia uma liberalização agrícola substancial. Políticos nacionais continuam respondendo, em primeiro lugar, aos grupos de interesse que financiam as suas campanhas. Para ficar só em um exemplo, o candidato Barack Obama defende a manutenção da tarifa que protege os produtores de etanol de milho norte-americano da concorrência do etanol brasileiro, mais eficiente. Curiosamente, venceu a primeira das prévias eleitorais que o definiram como candidato democrata. Onde ocorreu essa prévia, decisiva em sua campanha? Em Iowa, Estado que é o maior produtor de etanol de milho daquele país. Doha era, sem dúvida, a melhor alternativa para obter a redução dos subsídios concedidos pelos países desenvolvidos e para ampliar os ganhos da liberalização comercial. Entretanto, as chances de a Rodada não dar certo eram muito grandes. Isso deveria ter levado o Brasil a costurar, em paralelo, o maior número possível de acordos bilaterais, o que não foi feito. Agora é correr para tentar recuperar o tempo perdido.