Título: Lobby a favor de regra para lobistas
Autor:
Fonte: Jornal do Brasil, 30/07/2008, Tema do Dia, p. A2

Falta de regras mundiais leva país à negociação regional

O fracasso da Rodada Doha aponta a estratégia malsucedida do Itamaraty ¿ que apostou todas as fichas no acordo multilateral ¿ e descortina um horizonte de desafios para as exportações brasileiras nos próximos anos. Ao contrário de outros países da América Latina, como Chile e México que buscaram outras esferas, o Brasil manteve-se isolado de acordos bilaterais e agora terá de enfrentar outro grande embate: a Argentina, parceira no Mercosul e cuja pauta de prioridades comerciais tem interesses bem diferentes.

Sem a possibilidade do acordo referendado pela Organização Mundial do Comércio (OMC) e com a Argentina travando as pautas bilaterais, os analistas apostam que a saída para os exportadores brasileiros daqui em diante será a demanda dos países industrializados, especialmente no setor de alimentos.

¿ Para compensar parcialmente o que deixou de ganhar com Doha, o Brasil deveria tentar negociar com a Europa. Ali é que temos muito interesse. Agora, é preciso analisar o fator Argentina. O Mercosul não serve para nada, mas não morre nunca ¿ diz André Nassar, diretor-executivo do Ícone, entidade de associações agrícolas, que acompanhou de perto as negociações em Genebra e abasteceu a delegação do Brasil com números do setor.

Nassar acha que o mercado agrícola ainda vai crescer, mas o país perdeu oportunidade de ter melhor acesso à Europa, o que não será compensado por acordos bilaterais, "porque teria que negociar com metade do planeta":

¿ O mercado vai acabar colocando as regras e fazendo diferença em relação ao crescimento das nossas exportações, sempre foi assim. Nossa dificuldade maior vai ser entrar nos países desenvolvidos, porque ali o mercado não cresce tanto, precisávamos do acordo para abrir aquelas portas.

Setor perde US$ 7 bilhões

Segundo o Ícone, o Brasil deixa de ganhar US$ 7 bilhões em um prazo que se estenderia até 2014, período final de implementação das conquistas do sonhado acordo multilateral. O total refere-se à exportação de carne bovina e frango para a União Européia e etanol para o mercado americano e europeu.

O vice-presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), José Augusto de Castro, diz que o país ficou relativamente isolado durante os sete anos das negociações de Doha, ao contrário de outros emergentes como México e Chile, que fecharam acordos em outras esferas.

¿ Os acordos bilaterais têm de ser a saída para o Brasil agora. O problema é que um entendimento tem que ser aceito por todos os parceiros do Mercosul ¿ disse Castro.

¿ Se o Brasil tivesse obtido resultado como estava mais ou menos se delineando, já teria promessa concreta, traduzida em acordos, de uma expansão de mercado daqui alguns anos ¿ afirmou Rubens Ricupero, ex-diretor geral da Conferência das Nações Unidas para Comércio e Desenvolvimento (Unctad). ¿ Agora não vai ter nada. Mercados por exemplo como o do etanol e agrícolas em geral, a diminuição de subsídios na Europa e Estados Unidos, não vai haver nada disso.

Pedro Camargo Neto, presidente da associação que reúne exportadores de carne suína, afirmou que agora o Brasil deve olhar para outras formas de expandir exportações.

¿ Você não ganha os aumentos que iriam ocorrer agora, mas a vida continua ¿ disse. ¿ O que o Brasil cresceu de exportador agrícola em 15 anos não teve nada a ver com a Rodada do Uruguai, por exemplo, mas sim com o aumento de produtividade, reforma estrutural.

Mas há quem coloque dúvidas sobre a eficácia de acordos regionais quando se trata de temas mais complexos, como os que travaram o avanço das negociações.

¿ Nas discussões bilaterais não há avanço em temas como subsídios à exportação, acesso a mercado e apoio doméstico que distorce o comércio ¿ disse consultora em comércio internacional Elisabete Seródio.