Título: Para analistas, diplomacia teve aprendizado
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Fonte: Jornal do Brasil, 30/07/2008, Tema do Dia, p. A2
Antes um acordo modesto do que nenhum. Dessa forma, representantes da indústria e do agronegócio lamentaram o fracasso da Rodada Doha, por causa do impasse capitaneado pelo ministro indiano do Comércio, Kamal Nath, e a representante de comércio dos EUA, Susan Schwab. Ainda que viesse a arcar com os maiores custos do acordo multilateral, a indústria viu o impasse na OMC como uma oportunidade perdida para que ela própria ¿ com ajuda do governo ¿ fizesse a lição de casa para melhorar sua competitividade.
O corte nas tarifas de importação e a inclusão de acordos setoriais que permitissem aos países desenvolvidos ganhar mercado no Brasil preocupavam o setor industrial.
Mesmo assim, as concessões poderiam significar ganho de produtividade nos próximos anos, à medida que tornariam a realização de reformas estruturais mais premente, diz Mário Marconini, diretor de negociações internacionais da Fiesp.
Julio Gomes de Almeida, consultor do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial, diz que "haveria um custo grande para a indústria. Mas precisamos olhar para a economia como um todo. Nesse sentido, é uma péssima notícia".
Mais reticente, o presidente da Abinee (indústria elétrica e eletrônica), Humberto Barbato, diz que um acordo poderia ser "danoso" para o segmento.
O impasse na OMC deixou lições importantes para a diplomacia brasileira, que acertou ao ser flexível para tentar concluir as negociações e não aceitar "o retrocesso" defendido por China e Índia.
Uma lição: não pôr todas as fichas nas negociações multilaterais. Segundo o presidente da Anfavea (associação das montadoras), Jackson Schneider, o setor precisa trabalhar em negociações bilaterais.
Outra lição: conhecer a opinião dos chineses, que se aliaram aos indianos num confronto que impediu ganhos, mesmo que tímidos, para emergentes competitivos no mercado agrícola, caso do Mercosul.