Título: Sarney critica operação do PMDB
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Fonte: Jornal do Brasil, 12/02/2005, País, p. A3
A explosão demográfica do PMDB, que aumentou sua bancada na Câmara em nove deputados, saltando de 77 para 86 parlamentares em apenas 10 dias, causou revolta generalizada ontem no Congresso. Durante café da manhã na residência do presidente da Câmara, João Paulo Cunha (PT-SP), o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), demonstrou apreensão sobre os danos à imagem do parlamento e sugeriu uma ação para coibir este processo, orquestrado pelo ex-governador do Rio, Anthony Garotinho.
- Se vocês encontrarem um meio de deter essas mudanças, eu endosso, na qualidade de presidente do Congresso - declarou Sarney.
Apesar da revolta com a situação, João Paulo admitiu que está de mãos atadas, já que a operação é permitida pela legislação. As novas composições partidárias não alteram a eleição da Mesa Diretora, marcada para a próxima segunda. Mas modificam a correlação de forças para a escolha das presidências das Comissões Permanentes da Casa. Se o PMDB ultrapassar o PT e tornar-se a maior bancada, poderá indicar o presidente da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), a principal da Casa. O troca-troca fica proibido a partir da meia-noite de segunda.
A operação de filiações no PMDB foi deflagrada há três semanas conforme havia antecipado o Jornal do Brasil.
Numa tacada só, Garotinho chegou a filiar sete parlamentares: Deley (ex-PV-RJ), Dr. Heleno e Alexandre Santos (ambos ex-PP-RJ) e os ex-PSC Zequinha Marinho (PA), Cabo Júlio (MG), Carlos William (MG) e Pastor Amarildo (TO). A operação está sendo chamada internamente no partido de Operação Locadora porque, pelo acordo, os deputados filiados poderiam, se julgassem conveniente, retornar aos seus partidos de origem em 45 dias, depois da eventual eleição de Saraiva Felipe e Virgílio. Seriam apenas ''locados''.
A preocupação foi levantada pelo líder do PMDB na Câmara, José Borba (PR). Ele é o maior prejudicado, pois o inchaço tem dois objetivos claros: destituí-lo da liderança do partido e apoiar o candidato avulso do PT à presidência da Câmara, Virgílio Guimarães (MG).
O vale-tudo das filiações partidárias às vésperas da eleição da Câmara incluiu até um indulto eleitoral ao deputado André Luiz (PMDB-RJ), afastado do partido depois das denúncias de cobrança de propina ao bicheiro Carlinhos Cachoeira em troca de favorecimento na CPI da Alerj. Para engrossar o coro dos oposicionistas no PMDB, André Luiz recebeu o perdão do presidente Michel Temer com direito a voltar inclusive a se pronunciar pelo partido.
- Veja só como o caso é grave. Qualquer partido comemora a entrada de novos filiados. No caso do PMDB, as adesões estão deixando o líder desesperado - apontou o presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto (SP).
Todos os líderes partidários estão preocupados. O líder do PTB na Câmara, José Múcio Monteiro (PE), que perdeu um parlamentar - Jair de Oliveira (ES) - seduzido pelas promessas de Garotinho, é um crítico mordaz.
- Não é justo, em uma noite, a legenda perder o trabalho de um ano inteiro de manutenção de bancadas - atacou.