Título: Países buscam culpado pelo fracasso
Autor: Barros, Victor
Fonte: Jornal do Brasil, 31/07/2008, Economia, p. A18

Falta de entendimento entre Estados na OMC continua após término da reunião ministerial

Victor Barros

Um dia depois do fracasso da Rodada Doha para maior liberalização do comércio mundial, em Genebra, os países trocam farpas na busca de um culpado. Ninguém quer assumir a responsabilidade pela falta de um acordo terça-feira na Organização Mundial do Comércio (OMC).

O presidente Lula lamentou o fracasso das negociações e atribuiu os resultados negativos à disputa entre Índia e Estados Unidos. O The New York Times acusou a China de mudar de lado e insistir em salvaguardas para a agricultura. O jornal indiano The Times noticiou que a Índia culpa os países ricos pela falta de entendimento. Na China, o jornal oficial também responsabilizou os desenvolvidos.

No Brasil, Lula disse que o governo "fez o que não pôde" para chegar a um acordo, mas não houve contrapartida dos países ricos. O presidente disse que ainda há esperança para um resultado positivo. No entanto, os esforços do governo serão, segundo ele, nas negociações bilaterais, como tinha afirmado mais cedo o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim. Lula não escondeu a decepção:

¿ Estou chateado. Mas ainda acho que podemos fazer este acordo. A política evolui.

Quando foi questionado sobre uma possível traição por parte do Brasil nas negociações, como a imprensa argentina noticiou, Lula, que visitará a Argentina no domingo, reagiu.

¿ Você acha que posso falar de Estado para Estado porque alguém especulou alguma coisa? Cada Estado, seja a Costa Rica, o Brasil ou Argentina pode trabalhar o quanto for, mas nenhum abre mão da soberania nacional ¿ afirmou.

Lula acredita que as barreiras nas negociações foram mais políticas do que econômicas. Segundo o presidente, na Índia e nos Estados Unidos serão realizadas eleições e, por isso, os negociadores não poderiam assumir posições de divergência com alguns setores da economia interna de seus países.

Os negociadores brasileiros se empenharam até o último momento, inclusive, aceitando a proposta européia, segundo Lula.

¿ Lamentavelmente no último segundo, possivelmente por problemas políticos, porque teremos eleições na Índia e nos Estados Unidos, houve um impasse entre as duas nações e, portanto, o acordo não saiu ¿ explicou.

Lula lamenta a oportunidade perdida de se encontrar um consenso que poderia melhorar a qualidade de vida dos mais pobres.

¿ Com o acordo iríamos garantir que houvesse paz, democracia, que não houvesse tanta imigração, e que as pessoas tivessem oportunidade de trabalhar e ganhar um salário e de comer. Para isso, os países ricos precisam flexibilizar para que os países pobres possam vender ¿ observou.

O presidente afirmou ainda que concordava com o primeiro-ministro da Índia, Manmoham Sing, de que as negociações não fracassaram, apenas foram interrompidas para uma nova reflexão.

Para Lula, o bom senso deve predominar entre os presidentes e primeiros-ministros a frente das negociações internacionais. O presidente disse que o governo vai se empenhar nas negociações bilaterais para fechar acordos.

O The New York Times criticou a China, que se mostrou favorável às altas tarifas de importações de alimentos de países ricos para supostamente não prejudicar agricultores nas nações pobres.

Oriente reage

O The Times of India noticiou que o país culpou os desenvolvidos por sua posição rígida a respeito dos subsídios concedidos por eles a seus agricultores. Em entrevista ao jornal, o ministro da Indústria e do Comércio Kamal Nath admitiu ter defendido fortes salvaguardas para seus agricultores para se defender das importações altamente subsidiadas dos países desenvolvidos.

Nath disse, durante a entrevista, que representava não apenas os interesses da Índia, mas os de mais de 100 países em desenvolvimento e pouco desenvolvidos. Para o ministro, a falta de um acordo na OMC é apenas uma pausa e não um fim.

¿ Achei que não podíamos ameaçar a subsistência de um bilhão de pessoas em vários países em desenvolvimento ¿ afirmou ao jornal The Times of India ¿ E a OMC não é um bufê onde você pode escolher o que quiser e ir embora.

O China Daily, jornal oficial chinês, também responsabilizou os países desenvolvidos pelo fracasso da Rodada. Em um editorial ontem, criticou o texto inicial que estava em negociação.

¿ Essa proposta colocaria em perigo a subsistência de agricultores vulneráveis do mundo em desenvolvimento devido a importações agrícolas baratas dos países ricos ¿ diz o editorial.

Segundo o jornal, o ministro do Comércio chinês Chen Deming lamentou o fracasso de Doha.

¿ Em face a uma desaceleração econômica mundial, inflação séria e riscos financeiros iminentes, o fracasso vai ter um grande impacto no sistema de comércio multilateral frágil ¿ contou Chen aos ministros durante as negociações, de acordo com China Daily.

Fontes envolvidas nas negociações disseram, segundo o China Daily, que a posição dura dos EUA causou o fracasso. (Com agências)