Título: Mulheres têm chances em quatro capitais
Autor: Bruno, Raphael
Fonte: Jornal do Brasil, 11/08/2008, País, p. A12
Especialistas: partidos e a própria legislação dificultam candidaturas
Raphael Bruno
BRASÍLIA
Apenas 25 dos 176 candidatos às prefeituras de capitais nas eleições municipais são mulheres. Apesar do percentual baixo das candidaturas ¿ 14,2% ¿ elas despontam como favoritas em pelo menos quatro capitais, o que abre a possibilidade de um resultado histórico para as mulheres. Hoje, só uma capital é administrada por uma mulher. A despeito do provável avanço, especialistas alertam para as limitações da participação feminina nos pleitos.
Atualmente, apenas Fortaleza está sob comando de uma prefeita. Luizianne Lins, candidata à reeleição, é, por sinal, uma das quatro candidatas que hoje ostentam o primeiro lugar nas pesquisas. Nesse escrete aparecem também a correligionária e candidata à prefeitura de São Paulo Marta Suplicy, a deputada federal e candidata do PCdoB em Belo Horizonte, Jô Moraes, e Micarla de Souza (PV), em Natal.
Disputa acirrada
Na capital potiguar, aliás, não só Micarla lidera a corrida eleitoral com 54%, de acordo com última pesquisa Ibope, como o segundo lugar também é ocupado por uma mulher, a petista Fátima Bezerra. Isso sem contar outros grandes colégios eleitorais do país onde as candidaturas femininas, apesar de não liderarem as pesquisas, mostram-se competitivas, como no Rio, onde Jandira Feghali (PCdoB), com 17%, ocupa o segundo lugar, atrás do senador Marcelo Crivella (PRB). E em Porto Alegre, onde a dupla de deputadas federais Maria do Rosário (PT) e Manuela D"Ávila (PCdoB) seguem de perto o atual prefeito e candidato à reeleição José Fogaça (PMDB). Na capital gaúcha, dos oito postulantes, quatro são mulheres.
¿ Temos ainda um caminho longo para que a disputa eleitoral seja mais igualitária ¿ contemporiza a cientista política da Universidade de São Paulo, Maria do Socorro.
A diretora do Centro Feminista de Estudos e Assessoria (Cfemea), Natalia Mori, endossa:
¿ Todo aumento é algo para se comemorar. É sinal de que os dados começam a refletir maior participação feminina ¿ admite a pesquisadora. ¿ Mas ainda não é o suficiente para alterar a ordem do problema. A política continua sendo um dos pilares que temos que romper para superar a estrutura patriarcal.
A cautela das especialistas é justificada pelos números. Apesar das candidaturas femininas competitivas, em 12 capitais ¿ quase metade do total do país ¿ nenhuma mulher está na disputa, incluindo cidades de peso como Salvador, Goiânia e Manaus.
Obstáculos
Natalia Mori, do Cfemea, conta que quatro fatores são vistos como primordiais para explicar a baixa participação feminina na política. O primeiro estaria relacionado à cultura, à maneira como homens e mulheres passam, desde pequenos, por experiências de aprendizagem diferenciadas que os levam a considerar como normais projetos de vida diferenciados. Os homens seriam educados para o sucesso individual no mundo público, enquanto sobraria para as mulheres o cuidado com o bem-estar da família. O segundo fator seria a divisão do trabalho entre os gêneros.
¿ O uso do tempo cotidiano é diferente, porque mesmo as mulheres que buscam trabalho não têm contrapartida suficiente da sociedade ou de seus parceiros ¿ diz Natália.
O terceiro ponto para a pouca participação feminina é a falta de estímulos dos próprios partidos.
¿ Os partidos têm que ter mais incentivos internos porque neles está grande parte da responsabilidade ¿ concorda a professora da USP, Maria do Socorro. ¿ Isso significa mais colocação de mulheres em cargos de peso dentro da estrutura partidária, mais destinação de recursos para as campanhas femininas, mais tempo no horário eleitoral.
Por fim, as limitações do próprio sistema eleitoral brasileiro são apontadas como empecilho. O Cfemea, por exemplo, defende o financiamento público exclusivo de campanha acompanhado do modelo de voto em lista fechada partidária, ou seja, onde o partido indicaria para o eleitor lista ordenada de forma alternada entre homens e mulheres.
Histórico ruim
Outro dado que preocupa as especialistas é a tendência da predominância masculina. É mais acentuada quando se trata de eleições majoritárias. No último pleito municipal, as mulheres foram responsáveis por 22,13% das candidaturas a cargos de vereador. Quando o assunto era prefeituras, contudo, esse percentual despencou para menos do que metade, 9,53%.
¿ A campanha majoritária é sempre mais complexa tanto para homem quanto para mulher ¿ diz Maria do Socorro, cientista política da USP. ¿ Mas, com certeza, acentua mais as desigualdades, por ser uma campanha mais difícil; envolve mais tempo na televisão, é mais cara. Há a necessidade de se acumular anteriormente mais capital eleitoral.