Título: Tensões por trás do separatismo
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Fonte: Jornal do Brasil, 12/08/2008, Editorial, p. A8
Não bastasse o mundo testemunhar as impopulares guerras do Afeganistão e do Iraque, que se arrastam há anos apesar de oposição da opinião pública, rivalidades políticas são postas em primeiro plano por Rússia e Geórgia. Ao darem início ao violento conflito bélico na região separatista da Ossétia do Sul, mais uma vez evidenciam a face combativa em prol de interesses, deixando direitos civis em segundo plano.
Em pouco mais de cinco dias de luta, o confronto já contabiliza 2 mil mortos e cerca de 40 mil refugiados. Forças russas avançaram em relação ao território separatista e já controlam metade do país. A potência gigante tomou a área separatista da Abcásia e Gori. Apesar de anunciar a saída de cidades como Senaki, lançou ultimato para que tropas georgianas deixem a fronteira da Abcásia e rumou à capital Tbilisi. Quase todos os 2 mil soldados da Geórgia retornaram do Iraque, depois do início do combate.
Sob a discussão do separatismo envolvendo o combate entre Rússia e Geórgia, há questionamentos menos evidentes, como ao crescente distanciamento entre Estados Unidos e o ex-gigante soviético. Conforme observou Helene Cooper, do New York Times, a "imagem do presidente George Bush sorrindo e conversando com o premier russo, Vladimir Putin, nas arquibancadas da Olimpíada de Pequim, ao mesmo tempo em que aviões russos bombardeavam a Geórgia, revela a realidade da política dos EUA em relação à Rússia". No rol das conveniências diplomáticas, a iminência de um conflito mundial ¿ típico da Guerra Fria ¿ é disfarçada. Na prática, toma contornos atuais.
Na Ossétia do Sul, cerca de 2 terços dos 70 mil habitantes possuem nacionalidade russa. Natural que se queira, portanto, que a eventual república independente, cujas fronteiras estarão quase 100% cercadas pela Geórgia, esteja vinculada mais a Moscou do que a Tbilisi.
A Geórgia, que antes fazia parte do império soviético, hoje é rota de um gasoduto que liga a Ásia Central à Europa. Como observou o jornalista Marcelo Ambrosio, em seu blog no JB Online sobre política internacional, desde que a Geórgia conquistou sua independência, "o país se afastou da órbita de Moscou, atraído pela oferta de dólares americanos e pelo interesse das maiores companhias petrolíferas do mundo em torno daquilo que é o fator estratégico dessa guerra: as instalações de transporte e refino do gás que mantém 80% da Europa aquecida no inverno". Não à toa, os primeiros alvos da aviação russa foram as instalações de refino do país vizinho e inimigo. Convém lembrar, ainda, que Moscou tinha no território da Geórgia uma boa estrutura militar para uma eventual guerra contra a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), não fosse o desejo de Tbilisi em fazer parte da aliança ocidental.
Mesmo com o fim da Guerra Fria, o confronto permanece. Ainda que tenha deixado de lado ideologias que serviram de pretexto por décadas, a guerra atual se mostra menos separatista e configura um dos pilares de um conflito entre EUA e Rússia, ao lado do apoio à independência do Kosovo e à questão do escudo antimísseis americano no Leste europeu ¿ considerado pelo Kremlin contrário a seus interesses.
Ontem a Otan, frente à escalada de hostilidades, concordou em se reunir com autoridades russas para discutir o conflito na Ossétia do Sul. Espera-se que a sensatez sublinhe o tom do debate de modo a não repetir a incapacidade do Conselho de Segurança das Nações Unidas em agir para impedir a escalda de tensões e ações bélicas. A máxima do diplomata americano Henry Kissinger de que "nenhuma potência se retira para sempre" não pode ter mais espaço na geopolítica do século 21. É preciso que a comunidade internacional intervenha e seja capaz de mediar o embate para alcançar um cessar-fogo de ambas as partes.