Título: Indústria teme barganha em Doha
Autor: Rosa, Leda
Fonte: Jornal do Brasil, 13/08/2008, Economia, p. A18

Receio da Fiesp é de que concessões acirrem concorrência de produtos estrangeiros

Leda Rosa

SÃO PAULO

As conversações que visam à retomada da Rodada Doha não podem significar barganhas negativas para a indústria brasileira. Esta é a posição que a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), defendeu ontem durante a reunião entre Mário Marconini, seu diretor de Negociações Internacionais, e o embaixador Roberto Azevedo, chefe da chancelaria brasileira nas negociações encerradas em julho, em Genebra.

¿ Ser otimista é difícil, mas não posso dizer que estamos pessimistas. A Fiesp vê com bons olhos propostas que sejam auto-centradas, ou seja, negociem um item em sua extensão, sem barganhas em outras áreas ¿ diz Marconini, que apontou como positivos os princípios da proposta de Pascal Lamy, diretor geral da Organização Mundial do Comércio (OMC). Uma possível mudança no acordo de Doha poderia se transformar numa enxurrada de produtos importados no mercado brasileiro, o que afetaria a indústria nacional.

A Fiesp aprovou os rumos impostos pela chancelaria brasileira.

¿ Em Genebra, o Brasil assumiu um patamar mais relevante na liderança mundial. Lá deixaram claro também quais são os limites para o desenvolvimento da indústria nacional ¿ explicou Marconini.

Azevedo disse que as conversações atuais procuram analisar possíveis saídas para o impasse das salvaguardas especiais para a indústria dos países em desenvolvimento.

¿ Este foi o ponto que inviabilizou o acordo em Genebra.

Azevedo acredita que, em Genebra, o acordo não saiu por muito pouco. Para ele, a questão agora é empenho político dos líderes. Neste ponto, as conversações mantidas pelo presidente Lula com os líderes da China e Argentina "são fundamentais para fazer o processo ter mais força na mesa de negociações".

Lobby

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva telefonou na manhã de ontem para o primeiro-ministro indiano, Manmohan Singh, em mais uma tentativa de evitar o fracasso total da Rodada Doha. Disse que joga "tudo o que puder" na rodada. Nos últimos dias, Lula já conversou com os presidentes dos EUA, George W. Bush, e da China, Hu Jintao, sobre o tema, mas não há, ainda, perspectiva de avanço concreto.

¿ Mas o Brasil não está apostando apenas em Doha. Estamos negociando acordos de livre-comércio com a Índia, África do Sul, com países do Golfo e com a União Européia ¿ disse o embaixador. ¿ O problema é que muitos, como a União Européia, não negociam antes de Doha ter seu fim decretado.