Título: Remessas de lucro pressionam contas
Autor: Monteiro, Viviane
Fonte: Jornal do Brasil, 22/08/2008, Economia, p. A18

Déficit em conta corrente chegou a US$ 2,1 bilhões, pior resultado para o mês desde 1997.

O déficit em conta corrente do Brasil atingiu US$ 2,111 bilhões em julho, apresentando uma ligeira desaceleração em relação aos US$ 2,596 bilhões apurados no mês anterior, o que reflete o arrefecimento das remessas de lucros e dividendo e a melhora do saldo da balança comercial. Ainda assim, é o pior resultado para meses de julho desde 1997, quando o rombo chegou a US$ 3,073 bilhões. E é quase três vezes o apurado em julho do ano passado que foi de US$ 719 milhões negativos.

Os dados fazem parte da nota setor externo do Banco Central, divulgada ontem, cuja previsão é de que o déficit mantenha a trajetória de queda este mês e fique em US$ 1 bilhão.

O resultado de julho impactou as transações correntes do ano que ficaram deficitárias em US$ 19,512 bilhões no acumulado do ano, ou a 2,41% do Produto Interno Bruto (PIB). É o pior resultado da série histórica da autoridade monetária, iniciada em 1947 e reverteu o superávit de US$ 1,695 bilhão apurado em igual período do ano passado. Com isso, o déficit acumulado se aproximou ainda mais do rombo de US$ 21 bilhões, 1,4% do PIB, previsto pelo órgão para todo o ano de 2008. ­

- A previsão de US$ 21 bilhões é sujeita a revisão ­ avisou o chefe de política econômica do Banco Central, Altamir Lopes.

Nos últimos 12 meses, até julho, o déficit das contas correntes totalizou US$ 19,494 bilhões, ou 1,41% do produto. E demonstrou aceleração em relação ao resultado apurado em 12 meses até junho, em 1,32% do PIB. Na mesma etapa de 2007, a taxa era superavitária e representava a 0,79% do produto.

Balança comercial

Apesar da piora das contas ex- ternas, o chefe do departamento econômico do Banco Central assegura que a tendência é de desaceleração do déficit por força da menor saída de lucros e dividendos até o fim do ano. Para ele, o número veio forte em julho em função das saídas de lucros e dividendos significativos e de gastos elevados de brasileiros em viagens no exterior, em virtude da sazonalidade do período, como as férias de julho. As viagens internacionais deixaram um déficit de US$ 838 milhões que foi gerado pelos gastos no exterior em US$ 1,3 bilhão, o maior da série do Banco Central, e pelas receitas provenientes de turistas estrangeiros no Brasil, em US$ 468 milhões.

O saldo da balança comercial contribui positivamente para o resultado das transações correntes em US 3,7 bilhões em julho, acima dos US 2,7 bilhões no mês anterior.

Segundo a nota do Banco Central, as empresas remeteram ao exterior US$ 3,138 bilhões entre lucros e dividendos em julho, um volume menor que o de junho, de US$ 3,396 bilhões. ­

-As remessas de lucro e dividendos estão diminuindo porque no início do ano as empresas remeteram ao exterior muitos recursos para cobrirem as necessidades delas lá fora. Mas esses recursos começam a se esgotar -­ disse Lopes.

No acumulado do ano, os volumes remetidos ao exterior superaram o déficit das transações correntes. Somaram US$ 22,1 bilhões, quase o dobro do observado em igual etapa do ano passado. Enquanto os números parciais, até ontem, mostram que as remessas em agosto somavam US 1,077 bilhão. Lopes reitera, entretanto, que o déficit tem sido coberto pela a entrada de investimentos estrangeiros diretos no país (IED). A estimativa é de que esses recursos fechem o ano em US$ 35 bilhões. Nos últimos 12 meses somaram US 30,061 bilhões, ou 2,18% do PIB.

Porém, nesta comparação, o IED desacelerou em relação a junho, quando situou-se em 2,22% do PIB e em relação a idêntico período de 2007, até julho, quando a taxa ficou em 2,85% do produto.