Título: Uma nova estatal seria bem-vinda
Autor:
Fonte: Jornal do Brasil, 25/08/2008, Opinião, p. A8
A CRIAÇÃO DE UMA EMPRESA ESTATAL voltada para o gerenciamento dos recursos advindos da camada geológica do pré-sal ainda será tema de estudos mais de talhados por parte do poder público embora, de antemão, seja merecedora de aplausos de todo cidadão (carioca, fluminense ou brasileiro) interessado no bem-estar da nação. Uma nova companhia, enxuta e 100% brasileira, trabalhando em conjunto com a Petrobras, ajudaria a erguer o país ao almejado patamar de justiça social e desenvolvimento só alcançado, por ora, por um restrito grupo de nações. Nesse contexto, o modelo norueguês tem muito a oferecer às discussões sobre o novo marco regulatório para o setor petrolífero. Detentora de aproximadamente 50% das reservas de petróleo e gás ainda existentes na Europa Ocidental, a Noruega criou uma empresa totalmente estatal chamada Petoro, que conta com apenas 60 funcionários. Ela não explora diretamente o petróleo, como faz a Petrobras, mas entra como sócia de empresas que operam os poços. Os ganhos da Petoro são gastos majoritariamente para garantir benefícios previdenciários das futuras gerações. Por lei, a estatal é obrigada a enviar tudo o que ganha para um fundo de pensão, que atua como se fosse um fundo soberano. O dinheiro é investido no exterior, na compra de ações e bônus. Apenas os dividendos são gastos. E só 4% do dinheiro do fundo pode ser usado na economia interna a cada ano. Em 2007, os ativos do fundo somavam US$ 396,5 bilhões. O arcabouço jurídico para a criação de uma empresa similar no Brasil está contido na própria Carta Magna de 1988. O artigo 177, que trata do monopólio da União, até hoje sofreu apenas duas emendas relevantes (em 1995 e 2006), mantendo, assim, a idéia original dos constituintes, de defesa do Estado. De acordo com o jurista Dalmo Dallari, qualquer que seja a forma de contrato entre o governo e alguma empresa (pública, privada ou mista), é importante que dois pontos prevaleçam acima de quaisquer outros: "O monopólio da União e o interesse nacional, conforme prevê a Constituição". Portanto, o surgimento de uma estatal (batizada extra-oficialmente de Petrosal) focada na administração das riquezas do subsolo, manteria inalterado o preceito constitucional de defesa do interesse público e em nada reduziria o monopólio da União. Não se trata aqui de alijar do processo a Petrobras orgulho de todo brasileiro e única petrolífera no mundo a dominar a tecnologia de exploração de poços em águas profundas. Empresa de capital aberto (com boa parte das ações de posse de estrangeiros), a Petrobras manter-se-ia à frente da exploração, como contratada da nova estatal, garantindo seu quinhão nos lucros e dividendos do pré-sal e sua parceria histórica com o crescimento do país. Quanto às sugestões, cada vez mais freqüentes, destinadas a restringir a participação do Estado do Rio na receita da exploração de petróleo, o JB continua firme na mesma tecla e segue contrário a qualquer bandeira empunhada capaz de provocar perdas aos fluminenses. Maior produtor nacional de petróleo, o Rio de Janeiro recebeu este ano R$ 822 milhões. Pode ver podados cerca de 10% desse valor em caso de mudança de suas águas territoriais para a costa paulista, consoante o desejo de alguns parlamentares. Conforme afirma o deputado Miro Teixeira na edição de hoje, "quem se atrever à iniciativa de afanar o que nos é de direito deverá ser declarado o inimigo público número 1 do Rio de Janeiro".