Título: Polícia mata menina em operação
Autor: Sheila Machado
Fonte: Jornal do Brasil, 12/02/2005, Internacional, p. A9
Oficial afirma que Minustah não sabia que ação ia ocorrer e que soldados brasileiros não atiraram
A polícia do Haiti invadiu na quinta-feira uma base de ex-soldados rebeldes acusados pelo governo de matar quatro policiais em um ataque ocorrido no fim de semana. Uma menina morreu durante a operação em Petionville, na periferia de Porto Príncipe. A missão de estabilização da ONU, a Minustah, comandada pelo Brasil, afirma que sequer foi avisada de que a operação ocorreria e que foi chamada ''só quando a força policial se encontrava em dificuldades''.
- Não fomos consultados, não ajudamos no planejamento, nem na coordenação da operação feita pela polícia. Quando chegamos ao local, os agentes encontravam forte resistência dos ex-rebeldes, vários tiros já haviam sido disparados - contou ao JB, de Porto Príncipe, o comandante brasileiro Carlos Chagas. - As forças brasileiras fizeram o cerco à base, mas não efetuaram nenhum tiro, nem participaram da invasão às residências dos ex-soldados.
A menina, de cerca de 5 anos, foi morta quando os policiais dispararam contra um veículo perto do esconderijo dos rebeldes, contou Jean-Baptiste Inexan, motorista do carro:
- Eu vi um grupo de policiais, escondidos em um canto. Coloquei minhas mãos para cima e disse: ''Tenho duas crianças no carro, posso voltar?''. Um deles disse que eu podia. Então, quando comecei a voltar, eles abriram fogo.
A outra menina foi atingida por uma bala no tornozelo.
Segundo o comandante Chagas, a base dos ex-soldados - um grupo de três casas - fica dentro de um bairro residencial. Mas os moradores acreditam que o autor dos disparos que mataram a garota foi mesmo um policial e não um capacete azul.
- O general Heleno (comandante da Minustah) foi direto, criticou a ação da polícia, deixou claro que não concordava com a operação, da forma como foi feita. Não há dúvidas entre a população - defende.
Ele lembra que na base das forças da ONU há sinais para que motoristas se identifiquem e acendam as luzes internas do veículo ao se aproximarem, mas que a polícia nem sempre toma as mesmas medidas.
- Uma das obrigações da Minustah é apoiar a Polícia Nacional na sua reestruturação, organização e operação. Mas o Haiti é um país soberano, a polícia pode fazer o que bem entender. Não podemos obrigá-la a aceitar ajuda - diz Chagas.
Em Porto Príncipe, há um Centro de Operações Conjuntas, onde as ações mais complexas de estabilização do país são elaboradas.
- Mas a polícia tende a operar de forma independente. Só nos chama quando tem dificuldade - critica o comandante.
O líder dos ex-soldados, Ravix Remissainthe, rejeitou que seus homens tenham assassinado os policiais no domingo. Ao invadir a base, a polícia encontrou as casas vazias. Antes, deteve três pessoas.