Título: Gilmar leva caso do grampo a Lula
Autor: Quadros, Vaconcelo; Carneiro, Luiz Orlando
Fonte: Jornal do Brasil, 01/09/2008, País, p. A11

Presidente recebe ministro do Supremo, que cobrará explicações da Abin, suspeita de vigiá-lo.

BRASÍLIA

A suspeita de escuta ilegal no telefone do presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes, envolvendo a Agência Brasileira de Inteligência (Abin), levou o Congresso e o Judiciário a exigirem do presidente Lula o esclarecimento do caso. Mendes suspendeu a viagem que faria à Coréia do Sul para encontrar-se hoje, às 9h, com o presidente, a quem deverá pedir medidas concretas para barrar a suposta onda de espionagem por meio de órgãos vinculados ao governo. O ministro, que irá ao Palácio do Planalto acompanhado do vice-presidente do STF, Cezar Peluso, e do presidente do Superior Tribunal Eleitoral (TSE), Ayres Britto, também convocou uma sessão extraordinária e deu ao caso o peso de "crise institucional" entre os poderes da República. ­ Eu acho que é extremamente sério e nós precisamos dar uma resposta a isto, encerrar definitivamente isto que parece ser a instauração de estado policialesco no Brasil ­ disse Gilmar Mendes. No Rio Grande do Sul, o vice-presidente da República, José Alencar, considerou "abomináveis" escutas de qualquer natureza e o presidente da Câmara, Arlindo Chinaglia, afirmou, em São Paulo, que a Casa pode convocar o diretor-geral da Abin, Paulo Lacerda, a dar explicações sobre o assunto. O depoimento do diretor geral da Abin, Milton Campana, que informou Lacerda sobre a ajuda de servidores do órgão à Operação Satiagraha, marcado para a semana que vem, foi antecipado para esta terça-feria na CPI do Grampo. A repercussão da suspeita levantada pela reportagem da revista Veja deste fim de semana ­ em que transcreve a íntegra de um diálogo supostamente grampeado por servidores da Abin entre Mendes e o senador Demóstenes Torres (DEM-GO) ­ mobilizou o maior aparato oficial de investigação: a PF deve abrir inquérito, a Abin instaurou sindicância interna e acionou o Ministério da Justiça e a Procuradoria Geral da República. E o Congresso entrará no caso através da Comissão de Controle de Atividades de Inteligência e CPI do Grampo da Câmara. As revelações apontando a suspeita de que a Abin teria grampeado também os telefones do presidente do Congresso, Gabibaldi Alves, do secretário de Lula, Gilberto Carvalho, de outros parlamentares e dos ministros Dilma Roussef (Casa Civil) e José Múcio (Relações Institucionais) semearam um clima de intranqüilidade em Brasília. ­ É muito preocupante e sinaliza haver um descontrole quanto ao número e à clandestinidade das interceptações telefônicas sem autorização judicial. Estão abertas todas as possibilidades interpretativas e isso gera uma pesada atmosfera, uma pestilenta atmosfera de generalizada insegurança e instabilidade no processo de interação dos poderes ­ comentou o ministro Ayres Britto. O líder do PSDB na Câmara, José Anibal, em nome da bancada, afirmou que o presidente Lula deve uma satisfação imediata à sociedade. ­ Ou então permitirá a dedução de que ele é conivente com a realidade policialesca que teima em tentar se instalar no Brasil ­ acusou. O deputado frisou que um "governo democrático não deve permitir práticas de exceção caracterizadas pela espionagem política ou formação de Estado paralelo". O líder tucano lembrou que o fato de o presidente ter assinado, há duas semanas, uma medida provisória criando novos 400 cargos à Abin, reforça a necessidade de uma explicação que evite vincular o governo a supostas práticas ilegais.