Título: Minc e seus 40 coletes contagiam a Esplanada
Autor: Abade, Luciana
Fonte: Jornal do Brasil, 07/09/2008, País, p. A4
Com bom humor, ministro busca driblar antagonismos.
O ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, tomou um puxão de orelhas do presidente Luiz Inácio Lula da Silva já na posse, porque, em uma semana, falou mais do que a ex-ministra Marina Silva em cinco anos. Aos 57 anos, chega ao centésimo dia no cargo e circula pela Esplanada dos Ministérios com um dos quase 40 coletes que trouxe na mala, escorado em dois grandes desafios: apaziguar os ânimos de ambientalistas e ruralistas, além de amenizar os atritos com os outros ministérios. Credenciado pela quantidade de licenças ambientais que concedeu no Rio de Janeiro enquanto secretário do Meio Ambiente, Minc colocou uma série de imposições para aceitar o cargo. A postura que soou, na época, como arrogância mostrou-se, com o tempo, uma ação defensiva. Eu não pedi para ser ministro em momento algum disse. Vi o que a Marina penou: dinheiro contigenciado, as reservas estavam abandonadas. Continuo porque acho que estamos no caminho certo. Se amanhã não der mais, pego meu chapéu e vou embora.
Bom humor
De lá para cá, a queda-de-braço é constante. Ora com os colegas ambientalistas, ora com os ruralistas. Uma coisa nenhum dos dois grupos pode negar: ele tem bom humor. E, usando essa característica como aliada, já conseguiu dobrar o presidente Lula e até, quem diria, a chefe da Casa Civil, ministra Dilma Rousseff. A amizade iniciada com a dama-de-ferro do governo durante o exílio parece estar ajudando.
O encantamento de Lula foi confessado recentemente pelo próprio presidente em almoço recheado de polenta frita no Palácio da Alvorada. Segundo Minc, Lula disse que ficou inseguro com a escolha, mas depois de ver que os licenciamentos estavam saindo, o desmatamento caindo, concluiu que acertou.
A insegurança do presidente era fruto da chegada turbulenta de Minc. Afinal, a demissão da ""defensora da floresta" causou temor em ambientalistas de todo o mundo. Para eles, a transformação da Amazônia em carvão e pasto parecia certa. Passados 100 dias desde a posse, o ministro que não tem constrangimento em ser taxado de midiático comemora a queda histórica do desmatamento na Amazônia em um mês de julho, o mais crítico de toda a estiagem. E as comparações com a ex-titular do cargo estão ficando para trás.
Mas não temos ainda o que comemorar acrescentou. Só faremos isso quando implantarmos, de fato, um programa de desenvolvimento sustentável da Amazônia. Senão, os problemas vão voltar.
Além das comparações, Minc herdou de Marina dois adversários políticos. O governador do Mato Grosso, Blairo Maggi, a quem chama de "amigo de infância" quando está com a imprensa. E o ministro da Secretaria Especial de Assuntos Estratégicos, Mangabeira Unger, que ficou de olho no Fundo Amazônia, com arrecadação prevista em torno de R$ 1 bilhão. A gestão do fundo foi parar no Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Mas a presidência do Fundo é do Ministério do Meio Ambiente orgulha-se.
Com o inimigo
Em 100 dias, Minc fechou qua- tro acordos com o setor produtivo. A moratória da soja, que estabeleceu a restrição da compra do produto quando oriundos de novos desmatamentos na Amazônia, os acordos com a Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp) e com os frigoríficos, nos mesmos moldes da moratória, e o pacto com os produtores de madeira do Pará, que não vão mais desmatar em troca de mais oferta de madeira legal. A aprovação das atitudes de Minc pelos ambientalistas chegou ao ápice quando o presidente Lula assinou, em 22 de julho, o decreto que regulamentou a Lei de Crimes Ambientais. Com o decreto em vigor, as chances dos infratores de recorrerem das multas recebidas caíram pela metade. Atualmente apenas 5% das multas são pagas. O número, no entanto, não corresponde a 1,5% do valor. Mas o namoro com os ambientalistas anda abalado. Eles alegam que Minc está "conversando com o inimigo": a bancada ruralista do Congresso. Há poucas semanas o ministro esteve em audiência pública na Câmara e foi muito aplaudido. Minc não nega que está dialogando com o setor, mas garante que não há possibilidade do decreto cair, como sugerem os mais afoitos. Se tivessem força para derrubar o decreto, não estavam atrás de nós para um acordo argumenta. A maior demanda dos ruralistas é por mais tempo para cumprir os prazos de marcação de reservas e implantá-las fora da propriedade. Para Minc, essa reivindicação não é absurda e seria até mais ecológico fazer com que proprietários de terra comprem áreas estratégicas para preservar, como nascentes, do que manter quadradinhos pequenos em várias propriedades. O ministro não espera ser julgado pela flexibilização, mas pelo progresso alcançado com o decreto, uma vez que, antes, "ninguém marcava reserva legal, nem pagava multas e ficava por isso mesmo". Segundo o ministro, o que está em discussão são 15 artigos do decreto. A birra dos ambientalistas não pára por aí. Opositor histórico da energia nuclear, Minc anunciou o licenciamento da usina nuclear Angra 3. E, quando fala sobre o assunto, não disfarça o constrangimento por ter de fazê-lo. Fazer em parte, pois, segundo conta, 96% do projeto de licenciamento já havia sido feito por Marina, não por vontade da mesma, mas porque foi voto vencido. Minc acredita que sendo o Brasil a terra do sol, do vento e da biomassa, a energia nuclear é dispensável. No mais, admite: não se pode ganhar todas.