Título: Vendas em alta, empregos nem tanto
Autor: Luciana Otoni
Fonte: Jornal do Brasil, 12/02/2005, Economia, p. A19

Faturamento da indústria bate recorde em 2004, mas geração de vagas não acompanha bom desempenho

BRASÍLIA - O setor industrial fechou 2004 com expansão recorde. Desde que a Confederação Nacional da Indústria (CNI) iniciou a pesquisa sobre os resultados do setor, em 1992, nunca as vendas reais subiram tanto como no ano passado, 14,29%. O pessoal empregado, embora recorde, teve avanço bem mais moderado, de 3,49%. As horas trabalhadas aumentaram 6,21% e os salários pagos cresceram 9,01%, no melhor resultado desde 1995.

A utilização da capacidade instalada fechou o ano passado em 82,3%, 2,51 pontos percentuais acima da média verificada em 2003.

A forte reação, porém, não impediu que o aumento das taxas de juros e a desvalorização do dólar enfraquecessem a atividade produtiva. A indústria ingressou em 2005 com um ritmo de crescimento menor que poderá repercutir no nível do investimento.

Ao divulgar os indicadores, o economista da equipe técnica da CNI, Renato da Fonseca, apontou que, mantida a política de aperto monetário combinada com câmbio valorizado, poderá haver uma reversão na evolução do setor. Na conjuntura atual, não observa-se uma reversão, mas a perda de fôlego da atividade industrial, influenciada pelo recuo da demanda e pela perda da rentabilidade das exportações em decorrência da desvalorização do dólar.

- O crescimento da indústria perdeu ritmo. Esperamos voltar a crescer, mas menos que no ano passado, por causa da decisão de aperto da política monetária, que acaba por segurar a demanda -, comentou Renato da Fonseca.

Segundo a CNI, o empresário do setor industrial continua otimista com o ambiente de negócios, mas esse otimismo é menor que o manifestado no ano passado. Para este ano, a CNI projetou uma taxa de expansão do Produto Interno Bruto (PIB) de 3,7% ante os 5% calculados para 2004.

As sucessivas elevações da taxa básica de juros (Selic) são apontadas como a principal responsável pelo freio da atividade produtiva a partir dos últimos meses do ano passado. Entre setembro e janeiro, a Selic passou de 16% para 18,25% ao ano. Conforme explicou Renato da Fonseca, a alta dos juros afeta a demanda, a decisão de investimento e a previsão sobre a demanda futura.

Ele criticou a decisão do Banco Central de usar a Selic para segurar a inflação. Renato da Fonseca argumentou que o movimento de subida dos preços é liderado pelas tarifas administradas (como energia, combustível e transportes) e por algumas cotações internacionais como petróleo e produtos siderúrgicos.

Outra conseqüência, segundo ele, poderá ser a menor disposição ao investimento. Frente a incertezas sobre o comportamento futuro da demanda e com os rendimentos atrativos do mercado financeiros, as empresas poderão, conforme análise da CNI, adiar investimentos na produção industrial.

Como resultado do aperto monetário, a atividade industrial já mostrou desaceleração em dezembro, quando houve alta de apenas 0,16% nas vendas reais na comparação com o mês anterior. Em novembro, o avanço havia sido de 1,78%, já descontados os efeitos sazonais.

Na variável pessoal empregado, detectou-se alta de 0,34% em dezembro, contra 0,44% em novembro. As horas trabalhadas na produção, indicador de referência do maior ou menor nível da produção, tiveram alta de 1,71%.