O GLOBO, n 32.321, 02/02/2022. Mundo, p. 17
Israel comete apartheid contra palestinos, diz Anistia
Juan Carlos Sanz
ONG se une a outras entidades que chamam ações do país de crimes contra a Humanidade; para governo, acusação tem base antissemita
A Anistia Internacional (AI) se somou a organizações israelenses, como a B’Tselem, e internacionais, como a Human Rights Watch, e classificou como apartheid o tratamento discriminatório imposto por Israel à população palestina sob seu controle. As acusações, contidas em um relatório de 182 páginas apresentado ontem em Jerusalém pela secretária-geral da AI, Agnès Callamard, motivaram uma resposta preventiva do Ministério das Relações Exteriores de Israel na segunda-feira, que as chamou de “falsas” e baseadas em “antissemitismo”.
No relatório “O apartheid israelense contra a população palestina: Um cruel sistema de dominação e um crime contra a Humanidade”, a AI documenta que “confiscos de terras e propriedades palestinas, execuções extrajudiciais, transferências forçadas, restrições de movimento e negação de nacionalidade e cidadania são elementos de um sistema que, sob o direito internacional, equivale ao apartheid (...), com violações de direitos que constituem um crime contra a Humanidade, segundo definição do Estatuto de Roma do Tribunal Penal Internacional (TPI)”
A AI pede ao TPI que inclua o crime de apartheid em investigações em andamento e aos Estados que exerçam o princípio da jurisdição universal para levar os responsáveis à Justiça.
REAÇÃO PREVENTIVA
Em um vídeo divulgado na segunda, o chanceler israelense, Yair Lapid, pediu a não divulgação do relatório da AI, organização que chamou de “radical”. Seu ministério disse que o documento “nega o direito de Israel de existir como o Estado-nação do povo judeu com uma linguagem que o demoniza e adiciona combustível ao fogo do antissemitismo”.
A reação do chefe da diplomacia israelense mostra a preocupação de Israel com o crescente coro de vozes na esfera internacional que definem como um apartheid a discriminação sofrida pelos palestinos. A ofensiva diplomática também ocorre após a Promotoria do TPI, com sede em Haia, abrir uma investigação sobre crimes de guerra na Palestina em março do ano passado.
“Quer vivam em Gaza, Jerusalém Oriental, Hebron (Cisjordânia) ou Israel, os palestinos são tratados como um grupo racial inferior que é sistematicamente privado de seus direitos”, disse a secretária-geral da AI em comunicado.
AAI destaca que seu relatório é resultado de mais de quatro anos de pesquisas conduzidas pelas 70 seções da organização ao redor do mundo, que contam com 10 milhões de membros.
—Gostaríamos de trocar informações com o ministro das Relações Exteriores de Israel, mas ele ainda não respondeu ao contato que fizemos em outubro — disse Callamard à AFP. —Criticar as políticas do Estado de Israel não é antissemitismo, que é algo que denunciamos em todo o mundo.