O GLOBO, n 32.321, 02/02/2022. Mundo, p. 18
Castillo aponta 3º premier e troca titular da Economia
Político que se elegeu por sigla de extrema direita é indicado para comandar Gabinete; disputa com polícia derrubou antecessora
Em nova reforma ministerial em apenas seis meses de governo, o presidente do Peru, Pedro Castillo, nomeou ontem à noite o deputado Héctor Valer Pinto como seu novo primeiro-ministro, em substituição a Mirtha Vásquez, que renunciou anteontem. Valer Pinto —que passou por vários partidos e se elegeu em 2021 por uma sigla de extrema direita, a Renovação Popular, que logo trocou por uma nova legenda, o Peru Democrático —será a terceira pessoa a ocupar o comando do Gabinete, se seu nome passar pela aprovação do Congresso, onde Castillo não tem maioria.
Na reforma, também foi trocado o ministro da Economia. O economista Óscar Graham, funcionário de carreira que trabalhou no Banco Central, substituirá o professor da Universidade Católica e especialista em desenvolvimento Pedro Francke, que assessorou Castillo no segundo turno da campanha em 2021 e vinha buscando aproximar o professor e sindicalista eleito por um partido de ultraesquerda, o Peru Livre, do setor privado.
A nova mudança fragiliza ainda mais o presidente, que não tinha experiência de governo ao ser eleito. Mirtha Vázquez anunciou sua saída após uma disputa entre o ministro do Interior, Avelino Guillén, e o comandante-geral da Polícia Nacional, Javier Gallardo. O ministro havia contestado uma lista de generais da Polícia Nacional que deveriam passar para a reserva.
Acreditando que isso reduziria a capacidade de investigação do organismo, Guillén, que também renunciou anteontem, alegava que alguns dos nomes da lista deveriam permanecer em seus cargos, porque tinham trajetórias comprovadas na luta contra o crime organizado. Ele recomendou ao comandante-geral da polícia que reconsiderasse os nomes, mas foi ignorado.
Guillén chegou a propor a saída de Gallardo e, em meio ao embate, Vasquéz disse a Castillo que o melhor era manter o ministro do Interior e aposentar o comandante-geral da polícia, mas o presidente não seguiu a recomendação. Mesmo assim, Gallardo também optou por deixar o cargo.
Ontem, antes do anúncio do novo primeiro-ministro, o secretário-geral da Presidência, Carlos Jaico, apresentou sua renúncia, afirmando que há uma “influência nociva” no entorno do presidente.
“Alertei desde cedo para a influência nociva que alguns assessores e funcionários nomeados exercem em suas decisões, como um ‘gabinete nas sombras’ do qual nunca fiz parte, em detrimento da governabilidade e estabilidade do país”, disse Jaico em sua carta de renúncia.
Castillo fez várias mudanças em seu Gabinete desde que assumiu —no caso da pasta do Interior,já são quatro os ex-ministros. Vázquez, por sua vez, havia substituído Guido Bellido, representante da ala mais radical do Peru Livre. Com ela no cargo, Castillo superou em dezembro uma votação em que o partido Força Popular, de direita, liderado por Keiko Fujimori, havia pedido a abertura de um processo de impeachment contra ele.