Título: Tratamento complicado
Autor:
Fonte: Jornal do Brasil, 20/02/2005, Rio, p. A16
Usuários de crack têm mais dificuldade para abandonar o vício; síndrome de abstinência causa depressão
O engraxate J., de 22 anos, conta que já foi expulso por traficantes de três morros do Rio por fumar crack. Segundo ele, chegou a ver nessas comunidades mulheres morrerem de overdose ao seu lado. Consumidor da droga desde os 11 anos, J. vive em um centro de triagem da prefeitura. Hoje, ele tenta se livrar do vício das pedras que aprendeu a confeccionar nas ruas da capital paulista, quando cometia pequenos crimes. De acordo com especialistas, o tratamento para alguém se livrar da dependência é muito mais complicado do que a cocaína. - O crack é absorvido de forma mais rápida pelo organismo. Em sua mistura, em alguns casos, tem até gasolina. A síndrome de abstinência causa insônia, nervosismo e depressão. É muito doloroso - constata a psiquiatra Magda Vaissman, da Universidade Federal do Rio (UFRJ).
A opinião é a mesma de Maria Thereza de Aquino, coordenadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Atenção ao Uso de Drogas (Nepad), da Universidade do Estado do Rio. Segundo ela, o Sistema Nervoso Central é profundamente afetado por este subproduto da cocaína. Em sua maioria, o que se vê nos centros de tratamento são pessoas pobres, com problemas familiares e que já utilizaram outras drogas como álcool e cocaína.
- Depois que passei a usar crack comecei a roubar objetos de valor da minha família. A onda passa em cinco ou 10 minutos. Depois a gente fica cego para consumi-la - lembra X., que iniciou o consumo no Espírito Santo e hoje se trata no Rio.
Para Sérgio Albuquerque, conselheiro de dependência química do Conselho Estadual Anti-drogas (Cead), a compulsão do viciado é difícil de ser tratada. Psicólogos, psiquiatras e assistentes sociais utilizam métodos para controlar a ansiedade dos dependentes.
- Temos que conscientizá-los de que eles não precisam da droga para viver, para serem felizes. Os quadros mais graves são levados para as clínicas, enquanto trabalhamos outros pacientes dizendo que é possível vencer a dependência - comenta Albuquerque.
Durante anos, a droga tentou entrar nos morros do Rio. Levantamento do Cead mostra que a maior parte dos dependentes são pessoas que consumiram o crack, inicialmente, em outro ponto do país. Mas, há aqueles que foram incentivados por turistas que visitaram a cidade.
- Ela me pediu que comprasse cocaína no Morro dos Tabajaras, em Copacabana. Depois me ofereceu. Assim, começou meu pesadelo - recorda-se G., de 23 anos.
O número de dependentes em crack no Rio cresce ao passo que o número de apreensões da droga realizadas no país pela Polícia Federal diminui a cada ano. Em 2004 foram 100 quilos. Já em 2003, 135 quilos e em 2002, 156 quilos.
Para o delegado Rodrigo Oliveira, da Delegacia de Repressão a Entorpecentes, da Polícia Civil, a situação do estado é complicada.
- O problema não é só da polícia, mas de toda a sociedade - garante o delegado.