Título: O poderoso Exército Brancaleone
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Fonte: Jornal do Brasil, 14/09/2008, Eleições Municipais, p. A30

Candidatos fazem críticas ao governador e ao prefeito e se dizem em partidos sérios.

Os senhores acham que o Sérgio Cabral e o Cesar Maia são mal gestores?

Filipe Pereira Sim, são mal gestores, uma vez que eles não produzem políticas públicas. Minha proposta é que as políticas aplicadas no governo sejam políticas que possam ser continuadas. Não adianta chegar na prefeitura e falar que o favela-bairro não serviu de nada, porque melhorou a vida de muitas pessoas da nossa cidade. Será um projeto que, se eu for eleito, vou dar continuidade onde for necessário ser dado. O que não podemos é priorizar à terceirização do serviço de saúde pública, o que está sendo feito pelo governo do Estado, e esquecer de recuperar as emergências dos hospitais, esquecer de melhor a remuneração dos nosso trabalhadores da saúde. Isso que não pode acontecer.

Eduardo Serra Considero. Tanto o governador como o prefeito são bons gestores para os seguimentos da população para o qual eles governam que são os segmentos de alta renda e setor privado. O Filipe falou com razão da área da saúde terceirizada, porque não só encarece os hospitais públicos, como concentra cada vez mais a oferta nos segmentos que podem pagar, que é a elite. Podia dar o exemplo do Pan-Americano em que todos os equipamentos estão na mão do setor privado, com exceção do parque aquático Maria Lenk, onde há denúncia de vazamento de água nas piscinas. É uma prova que as gestões do prefeito e do governador estão voltadas às camadas mais abastadas da sociedade. Não há um projeto de distribuição da riqueza, de provimento dos serviços sociais da população. São governos que repetem práticas que vêm do neoliberalismo, da confrontação militar do crime em que qualquer pobre é suspeito de ser criminoso. São governos excelentes para a elite. Esses governos contribuem para a extrema desigualdade do Rio de Janeiro.

Filipe Pereira O nosso prefeito já deixou de aplicar um recurso para a nossa cidade e o nosso governador já rejeitou um recurso aprovado, de minha autoria, de R$ 23 milhões para ser aplicado na segurança pública, aqui na região metropolitana, então isso mostra o descaso dos nossos atuais gestores de rejeitar políticas que vão atingir a população como um todo.

Vinícius Cordeiro O governador começou sua gestão tomando algumas medidas na tentativa de redesenho de gestão, mas sucumbiu às alianças atrasadas no interior do Estado, não se desvencilhou de figuras de duvidosíssima eficácia operacional do governo Garotinho. Entendo que falta modernidade naquela relação dos deputados da Alerj e o governador e ainda há muito loteamento político na sua gestão. Quanto ao prefeito, acho que essa eleição está servindo para desmontar o paradigma de Cesar como administrador. O Cesar que a gente gostou da primeira gestão, que fez profundos investimentos na parte viária. A história das sub-prefeituras é uma bela idéia que foi corrompida diante da politicagem. Foram criados cargos comissionados, sem eficácia direta na gestão. Podemos sim questionar a política tributária burra e incompetente que o prefeito fez na cidade nos últimos 16 anos e que perdemos muito capital.

Os senhores não se importam de serem chamados de nanicos?

Eduardo Serra Eu oscilo entre essa resposta e uma outra: o PCB é um partido pequeno, mas muito grande historicamente no seu passado, no seu presente e certamente no seu futuro, pela coerência política, pela trajetória e pelas propostas políticas que ele tem.

Filipe Pereira Existe uma situação muito interessante. O PSOL, é um partido nanico? Tem três deputados federais. O PSC hoje tem 11 e um senador da república. O PV é um partido nanico? Tem 13 deputados federais, só dois a mais do que o PSC. Por que somos nanicos? Será que é por que a mídia não nos procura? Por que não fazemos a política de falar a frase mais bonita para ir ao jornal e fazemos política realmente séria? Então eu sempre respondo essa pergunta desse jeito. Nanico, primeiramente, é um desrespeito com 51.062 eleitores que acreditaram neste nanico para representá-los em Brasília. Eu acho que não estão me chamando de nanico, estão chamando de nanico o pensamento da população fluminense que nos elegeu para estar em Brasília.

Vinícius Cordeiro Costumo dizer que nanico é a mãe. Eu impugnei a Solange Amaral, porque ela respondia uma ação de improbidade administrativa, o que é sério, agora como gestora de habitação, isso é recente. E a maior parte da população não sabia que ela respondia a essa ação recebida pelo juízo e a ação continua em processo. A mídia me deu uma linha falando que "nanico impugna adversária". Estão falando tanto em ficha limpa, acho que a questão era discutir porque ela responde a esse processo.

Mas ela foi impugnada?

Vinícius Cordeiro Eu pedi impugnação, mas ela não foi impugnada porque a Justiça liberou todo mundo.

Ela seria uma ficha-suja?

Vinícius Cordeiro Ela é uma ficha-suja.

Quem mais é ficha-suja entre seus adversários?

Filipe Pereira Olha Vinícius, eu estou fora dessa hein...

Vinícius Cordeiro Eu preferia, ao invés de discutir a vida dos candidatos, ver as companhias deles. Tem muita gente que é contra o Cesar Maia e que escolheu como candidato a vice, secretário até anteontem. O Jimmy Pereira, vice do Crivella, era sub-prefeito da Ilha do Governador. O Luiz Paulo Corrêa da Rocha era secretário de trânsito do Cesar Maia.

O movimento evangélico está rachado?

Filipe Pereira Acho que o movimento evangélico não está nem um pouco rachado. Sempre falo que religião não deve se misturar com política. Eu sou evangélico, da Igreja Presbiteriana de Madureira, onde nasci e até hoje faço parte, sou obreiro da minha Igreja e por isso fui o candidato da minha Igreja quando fui vereador, quando fui candidato a deputado federal e hoje inclusive, por uma questão partidária, eu não sou o candidato da minha Igreja, mas nada me impediu até hoje que eu tivesse voto.

Quem é o candidato da sua Igreja?

Filipe Pereira Hoje o bispo Manoel Ferreira, do PTB, partido que está aliado ao do Eduardo Paes e está caminhando junto com o Eduardo Paes.

O senhor diz que não se deve misturar religião e política, mas no nome do seu partido já está embutido uma religião, não?

Filipe Pereira Cristianismo não é religião, é doutrina. Os valores do cristianismo é que são valorizados, do respeito ao ser humano, do amor ao próximo. De amar ao próximo como amamos a nós mesmos.

A Igreja do senhor não tem um candidato oficial?

Filipe Pereira Não. Existe o apoio. Agora, Igreja somos cada um de nós. O bispo Manoel Ferreira partiu para um apoio pessoal e quer levar a denominação a apoiá-lo. Isso não significa que os membros da Igreja vão votar, verdadeiramente, no candidato apoiado. Eu sou de uma Igreja, mas nem por isso vou ter o pensamento ingênuo de que todos da minha Igreja vão votar em mim. Eu acredito que política é caráter. Hoje, infelizmente, nos deparamos com pessoas de várias religiões diferentes, que a religião não garante o caráter do ser humano, caráter é uma coisa que aprendemos de berço, de nascimento. Religião é o meu credo. Sou cristão evangélico, agora politicamente eu honro, primeiramente o nome de Deus, que está acima de qualquer religião e honro também aqueles eleitores que me colocaram lá dentro como deputado federal. E quando eu falei que o setor evangélico não está rachado, Vinícius, é porque eu não acho que as Igrejas devam apoiar os candidatos por serem evangélicos, justamente porque o caráter das pessoas não está na religião. Cada um tem seu livre arbítrio.

Vinícius Cordeiro Eu só expliquei que o eleitorado evangélico não tem consenso como tentam vender. Tem três candidatos oriundos do segmento evangélico e não apenas o Crivella, como estou cansado de ouvir.

E como os senhores vêem o ateísmo do candidato do PCB?

Filipe Pereira Eu não sei qual é o credo dele, qual a religião, mas eu sempre falo o seguinte, eu como prefeito não vou ser o prefeito dos evangélicos e nem dos não-evangélicos, eu serei o prefeito da cidade do Rio de Janeiro e cuidarei da cidade como um todo e verei o cidadão como cidadão e não como a religião dele. Essa que é a maior diferença, não existe mistura, cada um recebe o apoio do segmento que acreditar.

Eduardo Serra Essa questão de ateísmo está resolvida entre a gente há muito tempo. O PCB não pergunta aos militantes, e aos que querem participar da campanha, qual é a religião dele. Então temos hoje ateus, agnósticos, pessoas de diferentes credos e temos dialogado nessa campanha com grupos religiosos também. Temos conversado porque na medida que o grupo se interessa em lutar pelas melhorias das condições de vida da população, nós aceitamos trabalhar em conjunto.

Mas qual a crença do senhor?

Eduardo Serra Me considero mais um agnóstico. A minha família é cristã, li textos bíblicos. Tenho uma formação cristã e respeito muito. Compartilho dos valores do cristianismo, pena que eles não são aplicados pela maioria dos que se diziam cristãos, porque senão viveríamos numa sociedade igualitária. Já fica aqui o meu convite ao Filipe para ser meu secretário de relação com as Igrejas.

Vinícius Cordeiro É capaz do comunista tentar converter os dois protestantes.

Filipe Pereira Mas eu acredito que nenhum governo precise de uma secretaria para se relacionar com algum segmento da nossa sociedade, senão haja secretaria no nosso governo, que precisa ser para todos.

O senhor tem certeza de que vai ao segundo turno?

Filipe Pereira Na política não dá para ter certeza de nada. Voltando ao assunto dos nanicos, o que determina o tamanho do partido é sua grandeza de pensamento, de história. Um membro de um partido que cita um outro como comida estragada, não deve ser levado a sério. Quando houve a possibilidade do PV nos procurar e fazer a fusão do nosso partido, grande parte da bancada do PV era favorável por achar o PSC sério, mas o deputado Gabeira nos chamou de comida estragada. Uma pessoa que usa tal termo para citar um partido do mesmo tamanho do dele, coloca em risco sua seriedade.

Por que são candidatos se, em tese, não têm chance?

Vinícius Cordeiro Em primeiro lugar, os partidos no regime presidencialista só conseguem se viabilizar através de candidaturas majoritárias. O PT, na década de 80, lançava candidatos que faziam menos de 1% dos votos. Mesmo tirando a desigualdade que temos diante da mídia e das pesquisas, porque as eleições têm sido, cada vez mais, uma ditadura das pesquisas, entendemos que a campanha organiza as idéias e uma corrente de opinião favorável às nossas teses, na cidade do Rio de Janeiro e evidentemente que eu tenho algumas teses distintas dos outros candidatos. Houve uma tentativa muito grande do senador Marcelo Crivella de nos tirar desse jogo. Acabou escolhendo como vice o filho de um vereador do nosso partido. O Crivella tinha sido quase uma unanimidade na corrente protestante do Rio, hoje somos três.

Eduardo Serra Meu nome foi lançado pelo Partido Comunista Brasileiro (PCB). Não foi uma iniciativa minha. O nosso partido, hoje, é pequeno, mas muito grande historicamente. Fiquei bastante emocionado no enterro do Fausto Wolff, quando a família pediu que a bandeira do PCB fosse colocada junto ao caixão. Ele sempre foi um lutador das causas democráticas e um jornalista independente. O PCB tem uma grandeza histórica grande e no momento se organizou nacionalmente e quer se colocar no jogo político, porque podemos mostrar nossas propostas, discutir com a sociedade o que podemos fazer. A gente sabe como a eleição começa, mas não como termina. Nossa intenção é mostrar um projeto claro à sociedade, factível e coerente politicamente com viabilidade técnica de ser implementado. Vivemos numa cidade dividida e desigual no sentido geográfico, em que alguns bairros têm todos os serviços enquanto muitos não dispõem de condições dignas de moradia. Uma cidade desigual nos serviços sociais, dominados por empresas privadas como nos casos da saúde, transportes e educação. E na democracia, muito limitada, temos uma Câmara de Vereadores onde a maioria é eleita por empresas privadas ou por benfeitores locais.

Filipe Pereira A grande verdade é que toda campanha parece não ter chance, uma vez que ela não tem dinheiro e principalmente quando não faz parte da máquina de governo. Em cima desse ponto é que acreditamos que a nova alternativa que o PSC tem pode dar certo, uma vez que demonstramos não ser continuidade desses governos que estão em nossa cidade. Acredito que, mesmo sem estrutura, a possibilidade que temos, até mesmo através da mídia, junto com nosso corpo-a-corpo, possamos passar para a população nossas propostas.

Qual a divergência de seus partidos com PCdoB e PTB?

Eduardo Serra Nossa divergência com o PCdoB começa nos anos 60, quando o PCB assume a autocrítica dos desvios do período stalinista e tem uma postura no Brasil, durante o período militar, de enfrentamento junto à organização da sociedade civil. O PCdoB manteve a visão stalinista, na época, e depois optou pela luta armada. Agora o PCdoB faz parte da base de sustentação do governo Lula e o PCB faz oposição pela esquerda, principalmente no aspecto econômico, do qual divergimos completamente por entender que é neoliberal, semelhante à política do governo anterior, de Fernando Henrique.

E o PPS?

Eduardo Serra O PPS foi um grupo que saiu do PCB no início do anos noventa. A legenda ficou conosco. O PCB nunca deixou de existir e garantimos a posse da legenda na Justiça. Houve uma tentativa do grupo que foi para o PPS de vincular a sigla do partido e até o símbolo da foice e martelo no INPI (Instituto Nacional de Propriedade Industrial). Essa foi uma das maiores tentativas de estelionato político de que tenho notícia, porque a foice e o martelo não pertencem ao PCB, mas à humanidade.

Vinícius Cordeiro O PTdoB é mais um partido trabalhista, que tentou buscar uma legenda trabalhista alternativa, o que não é novidade no Brasil. O PTdoB se tornou uma dissidência do PDT e do PTB. Sobre o PTB não há o que falar, porque perdeu totalmente a característica trabalhista. Parte do grupo da Ivete não tinha menor ligação histórica com o partido antigo. E o grupo do Roberto Jefferson não é o de mais um partido nacionalista com raízes fortes no movimento sindical. O PTB virou um partido essencialmente parlamentar e palaciano. Conseguiu a proeza de apoiar José Sarney, Collor, Fernando Henrique, Lula e assim será até o dia em que outro partido entrar no poder.

Por que o PTdoB não se junta ao PDT?

Vinícius Cordeiro Temos muita proximidade ideológica com o PDT. Inclusive, apoiamos o Jorge Roberto (candidato do PDT a prefeito de Niterói) para governador em 2010 e o PDT no interior, em diversas cidades. O PDT no Estado do Rio é muito complicado, principalmente depois do desaparecimento do Brizola.

Filipe, o que é seu partido e qual a diferença dos demais?

Filipe Pereira O PSC é um partido que até 2003 tinha uma administração que não era muito incisiva e tampouco abrangente a nível de Brasil, mas após 2003, quando entrou uma nova gestão, despontou com diversas frentes e lideranças participativas, tanto que tem 11 deputados federais e um senador. Mas outras agremiações se consideram mais partidos do que nós porque têm mais espaço na mídia, apesar de terem apenas três deputados federais.

O PSC é tido como uma linha auxiliar do Garotinho...

Filipe Pereira Não. O PSC, assim como até outros partidos que aqui estão, já foi aliado de governos que passaram pelo Estado. O PSC já se aliou ao Garotinho, mas nessa eleição tem candidatura própria para mostrar que não vai a reboque de ninguém.

Quais as dificuldades de fazer uma campanha sem visibilidade e dinheiro?

Vinícius Cordeiro Eu sou um dos candidatos que menos arrecadou e menos gastou, mas temos uma grande dificuldade em colocar na campanha uma boa produção de TV. Na rádio, o que conseguimos foi um jingle e produzir um programa próprio. Para deslocamento e militância, dependemos dos companheiros de partido. Mas nos falta estrutura. Você anda pela cidade e não vê placa minha, basicamente meu nome está associado com o dos candidatos a vereador. Eu chamo de guerrilha eleitoral, porque não adianta tentar alcançar todos. Tentamos sensibilizar alguns segmentos. Inclusive tenho uma crítica a fazer à mídia. Evidente que a cobertura tende a ser mais efetiva com os candidatos que se colocam melhor nas pesquisas, mas fizemos um debate importantíssimo e não vimos a mídia dando cobertura. Em compensação, a mídia destacou candidato dando tapinha nas costas de velhinhos. Quando falo sobre educação e saúde, não consigo passar que não vai dar para mexer nestes setores porque não há recursos para fazer posto médico ou creches. Não está havendo debate de verdade. Sou obrigado a ouvir o Molon (Alessandro, candidato do PT) falando que a campanha dele é pobre. Peraí: PT é pobre desde quando? A mídia tinha que mostrar as contradições.

Eduardo Serra Também temos pouco dinheiro. Nossa campanha é muito simples, do ponto de vista material: concentramos no programa de TV, na mídia, através de entrevistas... temos algum material impresso. A nosso favor, contam alguns fatores. Primeiro, o peso da legenda, que tem história e conteúdo. Segundo, as propostas que fazemos. Nosso objetivo é claro. Então a militância presente faz a diferença. Entretanto, faço coro com o Vinícius. Houve um debate em que saiu uma foto minha na primeira página, mas na matéria eu não disse nada. É um tratamento desigual.

Filipe Pereira Estrutura nos falta. A parte financeira tem sido uma dificuldade, porque sabemos que política se faz no corpo-a-corpo quando a gente precisa difundir nossa imagem na cidade. O espaço que a mídia tem nos dado tem sido positivo. Mesmo sem uma placa na rua, há lugares em que chego e as pessoas me reconhecem, sabem que sou candidato a prefeito.

Vinícius Cordeiro Eu queria dizer que tenho saudade da Lei Falcão (Armando, ministro da Justiça durante parte da ditadura militar). Não da época, mas da lei. Foi ela que permitiu o Brizola partir de 3% para 32%, porque era igual. O privilégio era o debate. Essa história que temos hoje de tamanho de bancada, não é assim na Europa.