Título: À espera dos abalos secundários
Autor:
Fonte: Jornal do Brasil, 16/09/2008, Opinião, p. A8

Em menos de 24 horas, o mundo assistiu a uma sucessão de más notícias que, conjugadas, elevaram a crise dos Estados Unidos a um outro patamar ¿ ainda mais turbulento, perplexo e perigoso. Primeiro o banco de investimentos Lehman Brothers anunciou concordata (falência, na prática). Em seguida, o Bank of America comprou o Merrill Lynch por US$ 50 bilhões. A seguir, a seguradora AIG bateu à porta do Federal Reserve pedindo um empréstimo de US$ 40 bilhões e, por fim, vieram tentativas do governo e de grandes bancos americanos de mostrar que, sim, há luz no fim do túnel. Num dia de pânico, tais ações soaram inúteis aos mercados financeiros: as bolsas despencaram.

Os episódios exibidos nesta segunda-feira nebulosa ressuscitaram o temor internacional de que o mundo se afunde numa crise semelhante ¿ ou pior ¿ do que os momentos mais perturbadores enfrentados pela economia mundial no passado. Alan Greenspan, o ex-presidente do Fed, já anunciava no domingo que a atual crise financeira americana é a pior dos últimos 50 anos e, provavelmente, do último século. E sublinhou que o problema parece longe de acabar. O dia seguinte confirmou-lhe a tese. Foi a continuação de problema deflagrado há cerca de um ano, com a eclosão dos créditos subprime. Depois disso, 11 bancos de diferentes países quebraram vítimas do crédito podre, responsáveis por estimativas de perdas na economia americana que giram em torno de US$ 500 bilhões e US$ 3 trilhões. Uma sucessão de maus prognósticos emergiu mundo afora. Diversos analistas fizeram coro às palavras de Greenspan. A crise freou a atividade econômica nos países ricos e contagiou as bolsas em todo o planeta.

A despeito da tormenta, contudo, a economia brasileira segue inabalável. Ou, pelo menos, seguia até ontem. Na semana passada, anunciou-se o crescimento do PIB de 6,1% no segundo trimestre deste ano ¿ o país deve completar dois anos consecutivos com o aumento do PIB acima de 5%, o que não ocorria havia mais de duas décadas. Aumento contínuo de investimentos produtivos, ascensão de 20 milhões de novos consumidores, o alcance de reservas internacionais da ordem de US$ 200 bilhões e outros escudos internos consideráveis acenaram, nos últimos tempos, para uma relativa imunidade ao contágio externo.

O abalo de ontem sobre a Bovespa, contudo, demonstrou o tamanho do risco em formação no horizonte. Caiu impressionantes 7,59%, a maior queda em sete anos. Aos poucos, vai-se tornando ilusória a idéia do que os especialistas chamam de decoupling ¿ o descolamento das economias emergentes diante da tormenta dos países ricos. Se é verdade que o Brasil sedimentou pilares robustos, por meio de políticas adotadas nos últimos 15 anos, também é verdade que os analistas hoje só divergem sobre o modo e a intensidade com os quais a crise atingirá o país.

O efeito é especialmente perturbador sobre o mercado de ações. A crise revela-se ruim para todo o sistema financeiro internacional ¿ e o Brasil não fugirá à regra. É normal, por exemplo, a retirada de recursos de um lugar para outro. Com isso, podemos ter um menor fluxo de investimentos. Acrescente-se à nova dieta financeira do futuro breve a diminuição da fartura do crédito no mercado internacional. As exportações deverão ser afetadas, a cotação do dólar poderá entrar numa espiral volátil ¿ risco para qualquer mercado ¿ e a economia tenderá a crescer menos.

É hora de o Brasil evitar festejos irracionais e achar mecanismos capazes de fazê-lo resistir à eventual tempestade que pode estar a caminho no ambiente internacional. Não foram poucas as vitórias conseguidas até aqui, mas riscos adiante, se não aniquilam a pujança econômica do presente, podem trazer ondas de pessimismo, impedir o país de acelerar a velocidade do crescimento e estreitar o fosso que ainda o separa das nações desenvolvidas.