Correio Braziliense, n. 22650, 26/03/2025. Economia, p. 13
Brasil e Japão discutem carne
Victor Correia
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva reúne-se hoje com o primeiro-ministro japonês Shigeru Ishiba, em Tóquio, para discutir a abertura do mercado japonês para a carne brasileira. Ontem, em jantar oferecido pelo imperador Naruhito, Lula destacou a proximidade entre os dois países e disse contar com o “firme engajamento” do Japão na COP 30, que será realizada em Belém, em novembro.
O objetivo de Lula, na conversa com Ishina, é marcar uma data para uma missão sanitária japonesa vir ao Brasil, inspecionar o produto nacional — passo importante para a liberação. Lula quer que esse prazo seja incluído no comunicado conjunto, a ser divulgado ao final da visita de Estado.
Depois de conversar com o primeiro-ministro, os dois líderes vão assinar uma série de acordos. “Vamos discutir muitos assuntos aqui, e espero que a gente consiga convencer o Japão das coisas que o Brasil tem de bom para negociar. Tenho o interesse de, em todas as viagens que fizer, levar empresários, deputados, gente que possa vender”, declarou Lula, em encontro com empresários da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), que acompanham a comitiva brasileira, para tratar do tema.
Segundo o ministro da Agricultura e Pecuária, Carlos Fávaro, Lula vai atuar pessoalmente para abrir o mercado. “Ele vai trabalhar pessoalmente com o primeiro-ministro para que isso se torne realidade, e para que os próximos passos saiam daqui estabelecidos com data e prazo”, comentou Fávaro.
O Brasil tenta, há 22 anos, abrir o mercado japonês para a carne brasileira, mas ainda não havia atingido os requisitos sanitários. Porém, será reconhecido, em maio, pela Organização Mundial da Saúde Animal (OMSA) como país livre da febre aftosa sem vacinação, considerado o último entrave para iniciar o comércio. O governo brasileiro quer, agora, marcar a visita de uma missão sanitária japonesa aos frigoríficos que têm interesse em exportar — próximo passo para a liberação. Porém, além da questão sanitária, há resistência entre os produtores japoneses e os maiores exportadores, especialmente Estados Unidos e Austrália. “Uma tonelada de carne bovina aqui no Japão vale em torno de US$ 8 mil, e o Brasil exporta em média a entre US$ 5 mil e US$ 5,5 mil a tonelada. Há um risco de o Brasil, com sua agressividade de mercado, possa tirar competitividade de produtores locais”, comentou Fávaro. “Mas todos os países que abriram o mercado tiveram estabilidade, principalmente inflacionária, no preço dos alimentos com a qualidade dos produtos. É isso que estamos tentando demonstrar”, emendou.
Concorrência
O ministro dos Transportes, Renan Filho, destacou a resistência dos demais exportadores, que vêm dificultando a abertura para o Brasil. “Os outros mercados que exportam utilizam sua potência econômica para não perder o mercado. Se abrir o mercado para o Brasil, a gente vai ganhar 50% da importação para o Japão, e isso é uma disputa global, obviamente”, enfatizou.
Além do jantar, Lula teve outros compromissos ontem, como o encerramento do Fórum Empresarial Brasil-Japão. Ele também se reuniu com membros da Associação de Pesquisadores Brasileiros no Japão (ABrJ) e com sindicalistas japoneses.
Frase
"Tenho o interesse de, em todas as viagens que fizer, levar empresários, deputados, gente que possa vender”
Luiz Inácio Lula da Silva, presidente da República