O Estado de S. Paulo, n. 48022, 10/04/2025. Política, p. A7

‘Rei do Lixo’ movimentou R$ 80 milhões, diz PF
Rayssa Motta
Fausto Macedo

 

 

O empresário do setor de limpeza urbana José Marcos Moura, o “Rei do Lixo”, apontado pela Polícia Federal como “operador de influência” do grupo investigado por suspeita de desvios de emendas parlamentares, movimentou R$ 80,2 milhões em transações atípicas. Ainda segundo a PF, Moura, dono de ampla rede de contatos sobretudo na Bahia, teria interferido em nomeações em prefeituras de outros Estados para facilitar o funcionamento do esquema alvo da Operação Overclean. Um desses aliados, conforme os investigadores, é o ex-secretário de Educação de Belo Horizonte Bruno Barral.

O Estadão procurou o empresário e o ex-secretário, mas não houve resposta.

O Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) analisou movimentações do “Rei do Lixo” e identificou, além dos R$ 80 milhões que levantaram suspeitas, uma transferência de R$ 435 mil para uma “autoridade com prerrogativa de foro sem justificativa econômica aparente”.

As informações constam na decisão do ministro Kassio Nunes Marques, do Supremo Tribunal Federal (STF), que autorizou a terceira fase da Overclean, deflagrada há uma semana. A identidade da autoridade não é revelada no documento.

Nesta etapa da operação, o “Rei do Lixo” foi alvo de buscas e Barral acabou afastado do cargo. No dia seguinte, a prefeitura de Belo Horizonte exonerou o secretário.

De acordo com a PF, o “Rei do Lixo” é suspeito de ser um dos líderes do grupo – ele integraria o “núcleo central” do esquema. O empresário é descrito na investigação como uma pessoa influente e bem relacionada no mundo político, sobretudo entre prefeituras baianas, mas também com atuação em outros Estados. Ele chegou a ser preso na investigação, mas conseguiu habeas corpus para aguardar a conclusão do inquérito em liberdade. A PF pediu um novo mandado de prisão contra o empresário, mas Nunes Marques negou.

‘EXPANSÃO’. “José Marcos Moura exerce papel de liderança e articulação central dentro da organização criminosa. É responsável pelo financiamento das operações ilícitas, pela coordenação das atividades criminosas e pela expansão da influência da organização, sobretudo dentro da administração pública”, diz a PF em um dos relatórios do inquérito.

Para os agentes federais, Barral foi indicado para o cargo na prefeitura de Belo Horizonte por determinação do “Rei do Lixo”. Os investigadores encontraram mensagens de WhatsApp entre o empresário e o exprefeito da capital mineira

Fuad Noman (PSD), que morreu no fim de março, vítima de câncer. “Fuad Noman, inicialmente, oferece as secretarias de Combate à Fome e de Mobilidade Social, mas Marcos Moura pede para ficar também com a

Administração pública PF afirma que ‘operadores’ do esquema passaram a se associar a servidores públicos e políticos

Secretaria de Educação. Durante a negociação, Noman pede para que Moura ‘abra mão’ do governo. Por fim, Bruno Barral acabou sendo o indicado para a Secretaria de Educação”, diz trecho da decisão de Nunes Marques que determinou o afastamento de Barral do cargo.

A decisão cita “elementos indiciários suficientes da prática de graves violações de deveres funcionais e de uso de cargo/função ocupado pelo referido servidor, que desponta como integrante da organização criminosa responsável por reiterados desvios de recursos públicos, oferecendo reais riscos ao erário e à regular tramitação das investigações”.

Antes de assumir o cargo na prefeitura de Belo Horizonte, Barral foi secretário de Educação de Salvador, na gestão de ACM Neto (União Brasil). Mensagens recuperadas no celular de um ex-servidor da prefeitura da capital baiana o arrastaram para a investigação.

CONTRATOS. Segundo a PF, conversas entre Barral e Flávio Henrique Pimenta, ex-diretor administrativo da Secretaria de Educação de Salvador, indicam ação coordenada para direcionar contratos à Larclean Saúde Ambiental, empresa dos irmãos Alex Rezende Parente e Fábio Rezende Parente, apontados como integrantes do mesmo núcleo do qual o “Rei do Lixo” fazia parte, o “central”. O ex-diretor da pasta de Educação e os irmãos não foram localizados.

Um dos contratos sob suspeita envolvia a desinfecção de escolas para o retorno de aulas presenciais após a pandemia de covid-19. A PF afirmou que Barral ainda teria ajudado a fraudar a renovação de um contrato para manter a Larclean como contratada da prefeitura de Salvador por pelo menos seis anos. Barral, além de manter elo com o “Rei do Lixo”, tinha “pleno conhecimento dos ilícitos, aderiu ao pacto criminoso e passou a integrar pessoalmente a organização criminosa liderada pelos irmãos Parente”, sustenta a PF.

Mais de cem pessoas estão na mira da Overclean. Com o avanço do inquérito, a PF afirma que “operadores” do esquema se associaram a servidores públicos e políticos. Com isso, prefeitos, secretários e servidores municipais usaram suas funções “para servir aos interesses do grupo nas respectivas localidades e garantir a continuidade das atividades delitivas, mediante recebimento de contrapartida financeira”. •