Correio Braziliense, n. 22695, 10/05/2025. Economia, p. 8
Brasil está menos desigual
Francisco Artur de Lima
Os indicadores de desigualdade de rendimento no Brasil caíram para os menores níveis desde 2012, com o índice de Gini do rendimento per capita atingindo 0,506. É o que revela a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, divulgada nesta semana pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
O Gini mede a concentração de renda de 0 (máxima igualdade) a 1 (máxima desigualdade). Apesar da queda recorde na desigualdade de renda, a posse do dinheiro no Brasil ainda é concentrada, segundo o relatório.
Outro dado da Penad aponta que o país alcançou, em 2024, o maior rendimento mensal real domiciliar per capita. O levantamento, que tem série histórica desde 2012, mostrou que o rendimento mensal domiciliar chegou a R$ 2.020, com alta de 4,7% em relação a 2023. Já diante do rendimento mensal domiciliar de 2012 (R$ 1.696), a elevação foi de 19,1%.
A melhora nos indicadores de rendimento e a queda da desigualdade, de acordo com o IBGE, se deu por dois fatores: dinamismo do mercado no trabalho e efeitos de programas sociais de transferência de renda — como o Bolsa Família e o Benefício de Prestação Continuada (BPC).
Na avaliação de Jefferson Mariano, analista socioeconômico do IBGE, a queda na desigualdade ocorreu principalmente devido ao desempenho positivo do mercado de trabalho. “A renda do trabalho teve um momento na participação (na redução da desigualdade). Tivemos um avanço, uma melhora no mercado de trabalho no Brasil, um aumento na força de trabalho ocupada”, discorreu Jefferson.
Já os efeitos dos programas sociais do governo na renda domiciliar per capita cresceu de 18,6 milhões em 2023 para 20,1 milhões em 2024. A participação desses programas no rendimento per capita variou de 3,7% para 3,8% entre 2023 e 2024, mantendo-se acima do período pré-pandemia (1,7% em 2019), embora abaixo do pico de 2020 (5,9%). Mariano apontou que o aumento no acesso e nos valores dos programas sociais está diretamente relacionado à queda na concentração de renda no Brasil.
Desafios
Apesar do cenário positivo na redução da desigualdade de renda, especialistas apontam desafios importantes para os próximos anos, especialmente relacionados à educação, qualificação profissional e ao futuro do mercado de trabalho.
Fernando Barbosa Filho, Pesquisador Sênior da Área de Economia Aplicada da Fundação Getúlio Vargas (FGV) Ibre destaca a necessidade de o Brasil enfrentar um atraso histórico na universalização da educação formal.
“Refiro-me à universalização da educação no sentido de concluir o Ensino Médio. Essa etapa é uma grande necessidade do país”, afirmou o professor.
A preocupação do pesquisador da FGV foi expressa em meio a milhões de jovens que chegam à fase adulta sem ter completado o Ensino Médio. De acordo com o IBGE, em pesquisa publicada no ano passado, nove milhões de pessoas entre 14 e 29 abandonaram a escola antes de concluir o Ensino Médio. Barbosa Filho também apontou para a necessidade de fomentar a qualificação profissional.