O GLOBO, n 32.340, 21/02/2022. Mundo, p. 17

Laços de China e Rússia acendem alerta nos EUA e Europa
Edward Wong
New York Times


Durante crise ucraniana, países alcançam pactos de longo prazo e mostram posturas similares em questões estratégicas globais
 

Autoridades atuais e anteriores dos EUA e da Europa dizem estar alarmadas com o fato de que um pacto de não agressão entre a China e a Rússia possa significar um realinhamento global. Prevendo um novo tipo de Guerra Fria, funcionários do governo Biden dizem que os EUA trabalharão para criar e reforçar suas próprias coalizões de nações democráticas — incluindo novos grupos estratégicos da Europa e da região Ásia-Pacífico —e ajudar os países a desenvolver capacidades militares avançadas.

Nas últimas semanas, as duas nações negociaram um contrato de 30 anos para a Rússia fornecer gás à China por meio de um novo gasoduto. Também bloquearam uma exigência de Washington de que a ONU imponha sanções adicionais à Coreia do Norte após novos testes de mísseis, embora os dois tenham concordado com sanções semelhantes antes. E a Rússia deslocou um grande número de tropas da Sibéria para o Oeste, um sinal de que Moscou, ao se preparar para uma potencial invasão da Ucrânia, confia na China em sua fronteira no Leste.

O longo namoro culminou com uma declaração que dizia que sua parceria “não tinha limites”, o que o governo Biden vê como um ponto de virada nas relações China-Rússia e um desafio ao poder americano e europeu. Foi a primeira declaração em que a China se juntou abertamente à Rússia na oposição a expansões da Otan, e os dois países denunciaram a estratégia Indo-Pacífica de Washington e sua nova parceria de segurança, Aukus, que inclui Reino Unido e Austrália. Os países ainda descrevem Taiwan como “parte inalienável da China”.

A China e a Rússia declararam que trabalhariam com outros países para “promovera democracia genuína” e combater a ideologia e as instituições lideradas pelo Ocidente — construindo uma nova ordem na qual autocracias não são contestadas, dizem autoridades dos EUA e da Europa.

O fortalecimento dos laços pode anunciar a reconfiguração do triângulo de poder que definiu a Guerra Fria e que o presidente Richard Nixon explorou há 50 anos, quando fez uma visita a Pequim para normalizar as relações. Isso ajudou os EUA e a China a contra balançar a União Soviética.

A China e a Rússia não estão unidas pela ideologia e estão em um casamento de conveniência que é mais necessário para a Rússia. Embora Xi aprecie o desafio aos EUA, ele não quer a incerteza econômica de uma guerra europeia.

Mas há limites para o que a China faria para ajudar Putin se ele invadir a Ucrânia. Se Washington determinar sanções, as empresas chinesas podem comprar mais petróleo e gás e ajudar a preencher lacunas tecnológicas, mas os grandes bancos estatais não devem violar as sanções por medo de serem excluídos do sistema financeiro global. A China também é o maior parceiro comercial da Ucrânia, e não reconhece a anexação da Crimeia.