O GLOBO, n 32.340, 21/02/2022. Política, p. 8
Estudos observacionais
Natalia Pasternak
É preciso ter muito cuidado com notícias relacionando hormônios à Covid, se eles agravam ou reduzem a severidade da doença. A verdade é que até hoje nada foi provado a respeito.
Recentemente, estudo feito na Suécia relacionou o estrogênio, muito usado em reposição hormonal na menopausa, e mortes por Covid-19. O noticiário a respeito dizia que o estudo teria acompanhado 14 mil mulheres. A conclusão foi que mulheres que faziam reposição teriam 54% menos risco de morrer de Covid-19.
Dizendo assim parece impressionante, mas a verdade é que o estudo não acompanhou voluntárias, não mediu níveis de estrogênio no sangue e não permite conclusões desse tipo. Trata-se de um estudo observacional, feito com dados armazenados, não com pessoas. Países como Suécia e Dinamarca têm bastante facilidade para conduzir esse tipo de estudo, por causa da maneira como operam seus sistemas de saúde. Lá, medicamentos, vacinas e tratamentos ficam registrados no equivalente ao CPF da pessoa.
No caso específico, os pesquisadores cruzaram informações de morte por Covid-19 em mulheres de 50 a 80 anos, com informação sobre reposição hormonal ou tratamento com bloqueadores do hormônio. Esse cruzamento de dados gerou a informação de que existe uma possível correlação negativa entre uso de estrogênio e risco de morrer por Covid-19, mas essa correlação é preliminar e só serve para levantar uma hipótese, não para tirar uma conclusão. Estudos observacionais são muito importantes, mas são o início de um processo investigativo, não o final. A partir deles, podemos desenhar estudos em animais e em humanos, que talvez permitam estabelecer uma relação de causa e efeito.
Os autores tentaram levar em conta alguns fatores que poderiam interferir no resultado, como idade, classe social e escolaridade, que também aparecem no banco de dados utilizado. Mas outros elementos importantes que também causam interferência não constam no cadastro, como índice de massa corpórea, para saber se as voluntárias estão muito acima ou muito abaixo de um peso saudável; adesão ao tratamento, para conferir se estão realmente tomando os hormônios ou bloqueadores; e, é claro, não há como realmente medir os níveis do hormônio no sangue das voluntárias, e não havia dados sobre o tempo do tratamento hormonal. Os pesquisadores sabem disso, e mencionam as limitações no artigo científico, mas a maneira como o estudo vem sendo noticiado é enviesada e está induzindo o público ao erro.
Essa não é a primeira vez que esse tipo de estudo é noticiado de uma forma que sugere conclusões mais fortes do que a realidade permite. Em 2017, vários veículos de imprensa deram manchetes bastante impactantes de que pílula anticoncepcional causava depressão em adolescentes. Era também um estudo de coorte na Dinamarca, feito em moldes muito parecidos com este do estrogênio, mas que gerou medo e confusão. O trabalho observacional não tinha como trazer conclusões como esta, mas a interpretação da mídia foi difícil de desconstruir.
Esse erro apareceu de forma muito marcante durante a pandemia nos inúmeros estudos observacionais sobre tratamentos milagrosos como cloroquina, ivermectina, nitazoxanida. É essencial explicar como são feitos, e para que servem os diversos tipos de estudos sobre tratamentos e medicamentos. Alguns anos atrás, uma arroba de Twitter chamada “Just in mice”(só em camundongos) ficou famosa por brincar com jornalistas que divulgavam estudos feitos em animais como se o resultado já fosse aplicável a seres humanos. A brincadeira pegou, e muitos jornalistas mudaram a forma de noticiar, tomando o cuidado de sempre avisar que era um estudo preliminar, feito em roedores. Talvez seja a hora de fazer o mesmo com os estudos observacionais, para evitar pessoas correndo aos consultórios médicos exigindo o tratamento que saiu no jornal.
É essencial explicar como são feitos, e para que servem os diversos tipos de estudos sobre tratamentos e medicamentos