O GLOBO, n 32.340, 21/02/2022. Economia, p. 10
Dólar começou o ano em queda, mas é incerta a trajetória
Cris Almeida
Exportações e investidores estrangeiros elevam a oferta de moeda americana no país, mas caminho até o fim de 2022 depende de vários fatores
O 5,1802 dólar está se afastando dos picos registrados no ano passado. Em janeiro de 2022, a moeda americana caiu aproximadamente 5%. Na semana passada, chegou a R$ 5,1279, menor patamar desde setembro de 2021. O recuo se dá pelas condições favoráveis no Brasil: a entrada de dólares via investidores estrangeiros e exportadoras.
E se há mais dólares circulando no país, a oferta supera a demanda, o que resulta na perda de força da moeda aqui. O aumento do volume de capital externo investido no Brasil pode começar a explicar a valorização do real frente ao dólar. De acordo com a Bolsa de São Paulo, a B3, os investimentos estrangeiros no mercado acumulam alta acima de 7% este ano. Em janeiro, “gringos” investiram mais de R$ 37 bilhões em compras de ações na Bolsa brasileira, o maior saldo mensal de capital externo dos últimos 12 meses.
Esse interesse dos estrangeiros pelo mercado financeiro brasileiro tem relação direta com o ciclo de alta da Selic, taxa básica de juros da economia, que atrai investidores externos para a renda fixa. Após a última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC), que elevou a Selic a 10,75% ao ano, o Brasil recuperou o título de país com o maior juro real (descontada a inflação) do mundo. As projeções do mercado já apontam a taxa a 12,25% no fim do ano.
— A Selic mais alta atrai mais investimentos porque a renda fixa acaba rendendo mais, frente ao nível de risco de outros países emergentes. O investidor estrangeiro olha, compara e vê que ele tem um cenário de juros reais positivos e altos aqui no Brasil —explica o sócio e especialista em câmbio da Valor Investimentos, Davi Lelis.
FORÇA DAS ‘COMMODITIES’
Além da renda fixa, as ações da Bolsa brasileira estão mais atraentes para os estrangeiros com apetite ao risco, diz Lelis:
—Os investidores estrangeiros consideram que o prêmio compensa o risco.
As exportadoras também têm um papel fundamental. O aumento de exportações brasileiras, puxado pela retomada da economia mundial e a alta dos preços das commodities, tem trazido dólares para o Brasil.
—Os exportadores estão aproveitando para trazer mais dinheiro para o país enquanto o dólar ainda está valorizado. Para eles, é importante voltar num momento de moeda americana mais alta. Esse movimento, no entanto, contribui para a queda da moeda —diz Alexandre Espírito Santo, economista-chefe da Órama.
Ele vê margem para uma queda maior na direção do câmbio de equilíbrio, entre R$ 4,80 e R$ 4,90. Isso vai depender do aperto monetário do Federal Reserve (Fed), o banco central dos EUA, prometido para março, a fim de combater a inflação no país, que atingiu o maior nível em 40 anos. A expectativa é que a taxa básica de juros nos EUA, hoje entre zero e 0,25%, seja ajustada para algo entre 0,50% e 0,75% ao ano.
— Mas o Brasil precisa fazer sua parte. Se os riscos, político e fiscal, forem administráveis, acreditar que a gente vai ficar abaixo dos R$ 5 é bastante razoável —diz Espírito Santo.
Na avaliação dos especialistas, neste primeiro momento o dólar continuará tendo variações principalmente para baixo por causa desse fluxo de entrada de dólares no país. No entanto, quando as eleições no Brasil estiverem mais próximas, a moeda americana pode voltar a ganhar força. Para Lelis, a médio e longo prazos, o dólar deve subir.
Mas, antes disso, continuará perdendo força em 2022. Caso esse cenário de fluxo de capital externo permaneça e as tensões entre Rússia e Ucrânia diminuam, é possível que o dólar caia ainda mais do que o esperado. Depois, com aumento de juros nos EUA e eleições no Brasil, a moeda americana pode flutuar e se aproximar dos R$ 6, na pior das hipóteses, avaliam os especialistas.
— Tendo em vista que o câmbio é também uma medida de risco, um agravamento no quadro fiscal, bem como uma continuidade no atual quadro político, no caso de o governo tentar angariar mais votos, podem conduzir a uma deterioração na nossa taxa de câmbio no segundo semestre — alerta a economista e estrategista de câmbio do Banco Ourinvest, Cristiane Quartaroli.
BRASILEIROS INVESTEM FORA
O movimento contrário também tem sido significativo: brasileiros com investimentos no exterior. Dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) mostram que, em 2021, o número de brasileiros investindo no exterior bateu recorde.
O estoque em 12 meses dos investimentos brasileiros em carteira no exterior estava em US$ 12 bilhões no fim de 2020 e chegou a US$ 18,4 bilhões em agosto do ano passado. Desde então, houve uma desaceleração, culminando com resultados negativos entre outubro e dezembro. Com isso, o saldo em 12 meses no fim do ano passado havia desacelerado para US$ 13,587 bilhões.
O aumento das opções para investir lá fora animou os brasileiros. Produtos como BDRs (recibos de ações listadas no exterior), ETFs (fundos de índices) no exterior e fundos dolarizados, antes restritos a clientes private, chegaram a uma gama maior de investidores. Mas essa empolgação de brasileiro com relação aos ativos internacionais, segundo Espírito Santo, deve demorar para engrenar em 2022.
— O comportamento mais duro por parte do Fed vai exigir cautela. Diversificar continua sendo importante para proteger os investimentos em momentos de estresse.