O GLOBO, n 32.340, 21/02/2022. Mundo, p. 17

NA FRONTEIRA DA UCRÂNIA

Minsk, e Moscou


Rússia estende exercícios militares com a Bielorrússia em meio a temores de invasão

A Rússia ficará por mais tempo na Bielorrússia para realizar exercícios militares conjuntos , anunciou ontem o Ministério da Defesa bielorrusso, citando o aumento das tensões na vizinha Ucrânia. Iniciadas em 10 de fevereiro, as manobras, chamadas de “Resolução Aliada”, estavam previstas para terminar ontem. A extensão ocorre um dia depois de o presidente russo, Vladimir Putin, ter supervisionado testes de mísseis estratégicos com capacidade nuclear ao lado do presidente bielorrusso, Alexander Lukashenko, em um local não identificado na Rússia.

O anúncio ocorreu em meio ao aumento de hostilidades ao longo da linha de contato entre separatistas pró-Rússia no Leste da Ucrânia e forças de Kiev desde a última quinta-feira. O governo russo não informou quantos soldados participam dos exercícios na Bielorrússia, mas Washington estima o número em 30 mil, no que seria uma das maiores mobilizações desde o final da Guerra Fria, nos anos 1990. As manobras são vistas com receio por sua localização: alguns dos exercícios ocorrem perto da fronteira com a Ucrânia, a cerca de 100 km de Kiev.

ENCONTRO BIDEN E PUTIN 

Diante da crescente tensão, o presidente da França, Emmanuel Macron, assumiu a frente dos esforços diplomáticos em ligações para o líder da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, para Putin e, por último, para o presidente dos EUA, Joe Biden. No fim da noite de ontem, o Palácio do Eliseu anunciou que Macron propôs uma cúpula entre Biden e Putin, que em princípio foi aceita pelos dois. Previamente, o Kremlin declarou que, na ligação com Macron, Putin responsabilizou a Ucrânia pela escalada e a Otan por “enviar armas modernas e munição” a Kiev.

Na conversa com Macron, Putin reiterou que o Ocidente não vem levando a sério as demandas de segurança russas, incluindo o compromisso de que a Ucrânia nunca entre na aliança militar liderada pelos EUA. Ao mesmo tempo, porém, Putin concordou com Macron sobre a necessidade do diálogo para “facilitar a restauração do regime de cessar-fogo e assegurar o progresso no apaziguamento do conflito em Donbass [Leste da Ucrânia]“, disse o Kremlin.

Ficou previsto para hoje um telefonema entre os chanceleres francês, JeanYves Le Drian, e russo, Sergei Lavrov. Além disso, Macron e Putin concordaram na realização hoje de um encontro do Grupo de Contato Trilateral, do qual participam a Ucrânia, a Rússia e a Organização para Segurança e Cooperação na Europa (OSCE) —que monitora o conflito no Leste da Ucrânia.

Mais tarde, a Casa Branca declarou que, em sua ligação, Biden e Macron discutiram “os esforços diplomáticos e de dissuasão” relacionados à concentração de tropas russas perto da fronteira da Ucrânia. Nos últimos quatro meses, estima-se que a Rússia posicionou entre 150 mil e 190 mil soldados no Norte, Leste e Sul das fronteiras da Ucrânia.

Na última sexta-feira, Biden disse estar convencido de que Putin decidiu invadir a Ucrânia “nos próximos dias”, acrescentando que a escalada de incidentes no Leste ucraniano tinha o objetivo de criar um pretexto para justificar um ataque russo.

Diversos veículos de imprensa dos EUA afirmaram ontem que Biden fez a declaração depois de receber informações de Inteligência de que Putin já teria ordenado um ataque à Ucrânia. No começo do mês, a rede pública PBS também publicou informação similar, afirmando que, segundo fontes de Inteligência ocidentais, Putin havia decidido invadir. Na ocasião, a rede afirmou que o ataque estava previsto para acontecer na semana passada, o que não ocorreu.

Ontem, Dmitry Peskov, porta-voz do Kremlin, advertiu que as repetidas previsões do Ocidente sobre uma invasão eram provocativas e podiam ter consequências adversas.

—Isso diretamente aumenta a tensão. E quando a tensão aumenta ao máximo, como agora, qualquer faísca, qualquer incidente não planejado ou qualquer minúscula provocação planejada podem levar a consequências irreparáveis —afirmou Peskov à TV estatal Rossiya 1. —O exercício diário de anunciar datas da invasão da Ucrânia é uma prática muito danosa.

PEDIDO DE SANÇÕES 

Em um discurso no sábado, o presidente ucraniano reivindicou um cronograma “claro e viável” para a adesão de seu país à Otan e o fim da política de “apaziguamento” com a Rússia, conclamando os países do Ocidente a não esperar por uma possível invasão para impor sanções contra Moscou. Contudo, ontem, o secretário de Estado americano, Antony Blinken, rejeitou a aplicação imediata de sanções.

— O objetivo das sanções, em primeiro lugar, é tentar impedir que a Rússia inicie uma guerra. Quando você as aplica [antes], o elemento de dissuasão não é mais válido —disse.

A movimentação diplomática e a extensão dos exercícios russos com a Bielorrússia ocorreram enquanto aumentam as hostilidades em Lugansk e Donetsk, onde líderes separatistas pró-Rússia ordenaram uma mobilização militar total. Mais de 35 mil pessoas da região cruzaram a fronteira russa até ontem, informou a agência de notícias Interfax, citando autoridades da região russa de Rostov.

A Rússia emitiu cerca de 700 mil passaportes para os residentes da área controlada pelos rebeldes. O Ocidente suspeita que as alegações de Moscou de que cidadãos russos podem estar em perigo podem ser usadas como justificativa para uma ofensiva militar.

O conflito no Leste da Ucrânia teve início quando os separatistas pró-Moscou tomaram controle de parte do território na região em 2014, mesmo ano em Moscou anexou a Crimeia. Os Acordos de Minsk, fechados em 2014 para reduzir o conflito, não são cumpridos por Kiev nem Moscou. Desde então, mais de 14 mil pessoas morreram na região.