Correio Braziliense, n. 22703, 18/05/2025. Economia, p. 7
Freio às importações em mais três países
Fernanda Strickland
O setor avícola brasileiro sofreu mais um revés, ontem, com a suspensão temporária das importações de carne de frango por parte do Chile, México e Uruguai, após a confirmação do primeiro caso de influenza aviária de alta patogenicidade (IAAP) em uma criação comercial no país. Na sexta, Argentina, China e União Europeia já haviam interrompido a compra de aves brasileiras, ampliando as consequências econômicas provocadas pelo alerta sanitário.
As suspensões seguem os protocolos internacionais estabelecidos entre o Brasil e parceiros comerciais, que determinam a interrupção imediata das importações em casos de detecção da doença. Segundo dados do setor, as exportações de carne de frango para esses mercados somaram mais de US$ 190 milhões apenas em abril, o que acende um alerta sobre os potenciais prejuízos para a balança comercial e para os produtores nacionais.
A influenza aviária de alta patogenicidade já havia sido detectada em outras partes do mundo, incluindo Ásia, África e o norte da Europa. A chegada da doença a uma granja comercial brasileira marca uma nova fase de atenção no combate ao vírus no país.
O Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) informou que todas as medidas de contenção e erradicação previstas no plano nacional de contingência foram acionadas, com o objetivo de eliminar o foco da doença, com o abate das aves e preservar a capacidade produtiva da avicultura nacional. A pasta também disse que está em contato com os elos da cadeia produtiva, com a Organização Mundial de Saúde Animal e com os Ministérios da Saúde e do Meio Ambiente, além de manter comunicação direta com os parceiros comerciais afetados.
Apesar da gravidade da situação, o Mapa reforça que não há risco à saúde humana pelo consumo de carne de frango ou ovos, uma vez que a gripe aviária não é transmitida por meio da ingestão desses alimentos. Assim, não há qualquer recomendação para suspensão do consumo interno.
Impacto
O Brasil é o maior produtor de frango do mundo, sendo responsável por 35% do comércio mundial da proteína. O país exportou 5,157 milhões de toneladas de carne de frango, com receita de US$ 9,742 bilhões, no ano passado. Além do impacto financeiro, também surgem dúvidas na população sobre o risco de consumir carne de frango, por conta da possível contaminação.
Em 2024, o Brasil exportou mais de US$ 10 bilhões em carne de frango, representando 35% do comércio global. A China, Japão, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos estão entre os principais destinos da produção brasileira. Qualquer sinal de instabilidade sanitária pode gerar restrições comerciais imediatas, como já ocorreu no passado com o Japão.
Apesar do alerta, Felipe Vasconcellos, sócio da Equus Capital, avalia que é preciso cautela antes de tirar conclusões precipitadas sobre os impactos no mercado. “Existem países que podem impor embargos temporários, mas se o foco for contido e o Brasil mantiver transparência com os parceiros internacionais, a tendência é que os efeitos sejam limitados. Em casos como esse, já vimos no passado que a sobre oferta de frango no mercado interno pode levar a uma redução pontual de preços, mas ainda é cedo para qualquer projeção concreta.”
Nova fase
A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) publicou um comunicado, ontem, destacando que o vírus segue o percurso natural das aves migratórias pelas Américas. Segundo a entidade, essa expansão representa não apenas uma ameaça crescente à saúde animal, mas também à saúde pública e à biodiversidade. “O vírus está se espalhando conforme as rotas migratórias de aves silvestres, o que exige vigilância constante”, afirma o representante da FAO no Brasil, Jorge Meza. “Apesar disso, é importante lembrar que o consumo de carne de ave e ovos continua seguro, especialmente quando bem cozidos.”