VALOR ECONÔMICO, n 5418, dias 15,16 e 17 de Janeiro de 2022, Política, A9

Militares perdem protagonismo na campanha à reeleição de Bolsonaro

Andrea Jubé e Fabio Murakawa 

 

Fiadores do governo e um dos piliares da campanha eleitoral de 2018, os militares não repetirão o protagonismo neste ano. A extensa lista de fardados que ajudou o presidente Jair Bolsonaro a se eleger pode ficar neste ano restrita a apenas um nome: o ministro da Secretaria-Geral da Presidência, general Luiz Eduardo - que, mesmo assim, deve exercer um papel de coadjuvante.

O topo da cadeia de comando em 2022 já está definido: o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, e o ministro-chefe da Casa Civil e senador licenciado do Progressistas, Ciro Nogueira. Os dois primeiros estarão diretamente envolvidos na campanha presidencial. Nogueira, por sua vez, terá a missão de pilotar governo durante as viagens de Bolsonaro, além de compor o núcleo decisório. O ministro havia antecipado essa missão na “live” do Valor em dezembro.

Um dos coordenadores mais influentes há quatro anos e ainda tido como um dos principais conselheiros do presidente, o ministro do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) e general da reserva Augusto Heleno, não integrará a equipe.

O quadro é diferente do de 2018, quando o presidente se elegeu calcado na ação de apoiadores nas redes sociais e sob forte influência de militares. O programa de governo, por exemplo, teve a participação de ao menos três fardados: além de Heleno, os generais Aléssio Ribeiro Souto e Oswaldo Ferreira, atual presidente da Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh).

Outro que ajudou em 2018 e agora estará ausente é o general Maynard Santa Rosa, que foi secretário de Assuntos Estratégicos nos 11 primeiros meses de governo. Ele deixou o posto após se desentender com o então ministro da Secretaria-Geral, Jorge Oliveira, amigo do presidente, e queixar-se da influência de olavistas como Filipe Martins na politica externa. Após sair, disse sobre Bolsonaro que “governar não é uma ação entre amigos”.

Também teve um protagonismo na campanha o vice-presidente Hamilton Mourão. Ele simbolizava o resgate que o presidente queria fazer da imagem da ditadura militar- que Bolsonaro não considera ter sido uma ditadura.

A perda de protagonismo dos militares na campanha de Bolsonaro à reeleição pode ser atribuída, principalmente, a dois fatores. O primeiro deles é o ganho de poder exponencial do Centrão no governo Bolsonaro: o bloco ocupa agora os dois principais ministérios do Palácio do Planalto (Casa Civil e Secretaria de Governo), tem o controle da execução das emendas parlamentares e o partido do presidente, o PL.

É nesse contexto de expansão territorial do Centrão que o ministro Augusto Heleno perdeu espaço no núcleo decisório da campanha. Embora ainda exerça algum papel como conselheiro presidencial, Heleno tem histórico de desgaste com o bloco. Uma fonte do governo reconhece que não foi possível superar o episódio do passado recente em que Heleno cantou “se gritar pega Centrão, não fica um, meu irmão” - uma paródia da música “Reunião de Bacana”, do grupo Exporta Samba, gravada em 1981. A letra original trazia a palavra “ladrão” no lugar de “centrão”.

O general em maio do ano passado se retratou da brincadeira, feita durante a convenção do PSL que sagrou Bolsonaro candidato, em julho de 2018. “Não tenho mais essa opinião. A evolução de opinião faz parte do ser humano, faz parte do show político”, disse, em uma audiência na Câmara.

A segunda razão para que os militares fiquem em segundo plano na campanha à reeleição de Bolsonaro é a fase de turbulência que o presidente atravessa com a caserna. Há dez dias, dois episódios evidenciaram esse esgarçamento da relação.

No dia 8, o diretor-presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e contra-almirante da reserva, Antonio Barra Torres, surpreendeu ao subir o tom em uma nota de resposta à declaração de Bolsonaro de que a instituição teria interesse na vacinação infantil contra a covid-19.

Barra Torres disse que se o presidente tivesse informações sobre o “menor indício de corrupção” contra ele, que não perdesse tempo nem prevaricasse, e determinasse investigação policial. Do contrário, que ele se retratasse. Dois dias depois, Bolsonaro chamou a nota de “agressiva”.

No dia 6, gerou polêmica a diretriz do Exército recomendando aos militares que se vacinassem contra a covid-19 para o retorno ao trabalho presencial. O documento teria irritado Bolsonaro, que se posiciona contra a imunização.

Dois dias depois, entretanto, Bolsonaro tomou café da manhã com o comandante da força, Paulo Sérgio Nogueira. Mais tarde, no mesmo dia, Bolsonaro comentou o encontro com o general: “Na verdade, [a recomendação de vacinação] não foi do Exército, foi da Defesa [o ministério]. Dava dúvida na questão de exigir ou não a vacina. Não há exigência nenhuma”, minimizou.

No encontro com Bolsonaro, no sábado, o comandante Paulo Sérgio esclareceu que a diretriz do Exército havia se amparado em portaria do Ministério da Defesa, editada em dezembro. Nos bastidores, entretanto, o Valor apurou com fontes militares que a ampla repercussão sobre a diretriz da vacinação teria irritado o ministro da Defesa, Walter Braga Netto. No dia 7, o ministro reuniu-se com representantes das três Forças para tratar do episódio.

Braga Netto é um dos nomes cogitados para compor a chapa de Bolsonaro à reeleição como candidato a vice-presidente, entre aqueles que defendem que um militar volte a ocupar o posto. A relação de Bolsonaro com Mourão continua estremecida, e o atual vice-presidente deve postular a um cargo eletivo no Rio de Janeiro ou no Rio Grande do Sul.

Entretanto, Braga Netto enfrenta a oposição de lideranças do Centrão, que preferem outro perfil para ocupar a vaga de candidato a vice-presidente. Uma das possibilidades é que o posto seja preenchido por uma mulher, sendo que a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, que deve se filiar ao Progressistas, é cotada.

Nesse contexto, é sintomático que o ex-ministro da Secretaria de Governo e general da reserva Santos Cruz desponte na pré-campanha eleitoral ao lado de um dos principais desafetos de Bolsonaro, o ex-ministro da Justiça Sergio Moro.

Santos Cruz, que Bolsonaro um dia chamou de “irmão”, e depois demitiu abruptamente, filiou-se ao Podemos no mesmo evento de filiação de Moro, e posou para fotos ao lado do ex-juiz, que vem liderando a corrida para a vaga de postulante da terceira via à sucessão presidencial.

O entendimento entre civis e militares no governo, é que a campanha deste ano exigirá mais profissionalismo do que em 2018. Um desafio do grupo que está no topo da cadeia de comando é convencer o presidente a contratar um marqueteiro.

“É uma campanha que o presidente não conhece”, disse ao Valor um auxiliar palaciano. “Em 2018, ele não era presidente da República. Vai ter agora uma agência de marketing, planejamento de comício, tempo de televisão”, completou.

Além de Flávio, Valdemar e Nogueira, já participaram das reuniões da coordenação nesta etapa de pré-campanha o ministro do Trabalho e Previdência, Onyx Lorenzoni, e o presidente do Republicanos, deputado Marcos Pereira (SP). O ministro das Comunicações, Fábio Faria, deverá se juntar ao grupo nos próximos encontros. Ramos tem a vaga garantida, mas também não participou das primeiras reuniões.

Ramos sabe que, mesmo sendo amigo de Bolsonaro desde 1973, não exerce hoje tanta influência sobre ele quanto outros dentro e fora do governo como o secretário de Assuntos Estratégicos, almirante Flávio Rocha, e os filhos Flávio e Carlos, vereador pelo Republicanos no Rio.

Já Onyx foi um dos coordenadores mais atuantes da campanha de 2018. Há dúvidas, porém, se repetirá o desempenho neste ano, porque lidera as pesquisas para o governo do Rio Grande do Sul. No momento em que tiver que se dedicar mais à própria campanha é possível que se afaste da coordenação.