O GLOBO, n 32.341, 22/02/2022. Mundo, p. 16

PUTIN COM O PÉ NA PORTA

Filipe Barini e André Duchiade


Rússia reconhece repúblicas separatistas e envia tropas ao Leste da Ucrânia

Em pronunciamento de cerca de uma hora transmitido nacionalmente, o presidente da Rússia, Vladimir Putin, anunciou ontem que vai reconhecer a independência das auto proclamadas repúblicas de Luhansk e Donetsk, no Leste da Ucrânia, onde separatistas pró-Moscou controlam boa parte do território desde 2014 e travam uma guerra que deixou cerca de 15 mil mortos. Pouco depois, em decreto, Putin determinou o envio de uma “missão de paz” aos dois territórios. De acordo com a agência RIA, o presidente instruiu as Forças Armadas da Rússia a “garantira paz” nas regiões controladas pelos separatistas. Não foram divulgados detalhes sobre como ocorrerá essa operação, que equivale na prática a uma invasão do território do país vizinho.

ATAQUES A LENIN, KIEV E OTAN

A decisão de reconhecer as duas repúblicas separatistas foi anunciada por Putin em discurso marcado por referências históricas e ataques ao governo ucraniano e ao Ocidente, após uma reunião não programada e também televisionada do seu Conselho de Segurança Nacional. Na reunião, os outros 12 integrantes do órgão defenderam o reconhecimento da independência.

— Creio ser necessário tomar uma decisão que deveria ter sido tomada há muito tempo: reconhecer, imediatamente, a independência e a soberania da República Popular de Donetsk e da República Popular de Luhansk — afirmou Putin.

O decreto de reconhecimento e de estabelecimento de cooperação com as duas regiões, firmado por Putin após o discurso, atende a um pedido das lideranças separatistas, que apontam violação de acordos internacionais e afirmam que a população da área é alvo de ataques das forças ucranianas. Kiev, porém, nega as acusações.

No pronunciamento, Putin apontou que a Ucrânia é uma “parte integral” da História russa, afirmando que a “Ucrânia moderna” foi criada pela União Soviética, um processo que, em sua opinião, foi“um erro” e que prejudicou a Rússia.

—Como resultado da política bolchevique, a Ucrânia soviética surgiu, e hoje há uma boa razão para que seja chamada de “Ucrânia de Vladimir Ilyich Lenin”. Ele é seu autor e arquiteto —afirmou Putin.

Para ele, as autoridades ucranianas foram “contaminadas pelo vírus do nacionalismo e da corrupção” e passaram a ser comandadas por forças estrangeiras, em especial depois da chamada Euromaidan, a revolta popular que pôs fim, em 2014, ao governo de Viktor Yanukovich, aliado do Kremlin.

O movimento também serviu de pretexto para o conflito no Leste ucraniano, com o apoio de Moscou aos separatistas, e está relacionado à anexação da Península da Crimeia, que havia sido cedida à Ucrânia na era soviética, também em 2014.

Ao abordar a situação na região de Donbass, onde ficam as duas regiões separatistas, Putin acusou as autoridades de Kiev de tentarem banir o idioma russo através de leis que privilegiam o uso do ucraniano e de reprimir a Igreja Ortodoxa russa. Ele atacou o que chamou de “fluxo de armamentos” enviados à Ucrânia, criticou a presença de militares estrangeiros, em especial da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) no país, e acusou o governo ucraniano de buscar obter armas nucleares. Putin se referiu a um suposto desejo de Kiev de violar o chamado Memorando de Budapeste, de 1994, pelo qual as ex-repúblicas soviéticas da Ucrânia, da Bielorrússia e do Cazaquistão concordaram em entregar os arsenais nucleares soviéticos ao controle russo em troca de garantias de segurança por parte de Moscou. Indo além, afirmou que a Ucrânia poderia ser usada como plataforma para um ataque futuro da Otan contra a Rússia.

—Se a Ucrânia se juntasse à Otan, ela serviria como uma ameaça direta à segurança da Rússia —afirmou.

Segundo o Kremlin, a decisão foi informada aos líderes da Alemanha, Olaf Scholz, e da França, Emmanuel Macron, que ficaram “consternados” ao final das conversas com o presidente russo. Logo após o anúncio, as TVs russas mostraram comemoração em áreas de Donetsk e Luhansk.

No começo da reunião do Conselho de Segurança, Putin disse que “o destino da Ucrânia se decide hoje”. Em seguida, afirmou que era necessário considerar os apelos dos representantes de Donetsk e Luhansk, acrescentando que um reconhecimento da independência não significaria a anexação das regiões à Rússia.

Mais cedo, forças de segurança da Rússia afirmaram que militares e guardas de fronteira impediram“um grupo de reconhecimento e diversionismo” de violar a fronteira a partir do território ucraniano e que cinco pessoas foram mortas para impedir a incursão. A Ucrânia negou o informe, ta chan do-ode“fake news”.

Após o discurso de Putin, o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, convocou o Conselho de Segurança e Defesa Nacional, classificando a ação de Moscou como “violação da soberania” de seu país. Ele afirmou que a Ucrânia que rapaz e apoia um solução política e diplomática, acusando Moscou de destruir o processo de negociações internacionais em andamento.

— O reconhecimento da independência das regiões ocupadas das regiões de Donetsk e Luhansk significa a retirada unilateral da Rússia dos acordos de Minsk — disse Zelensky em pronunciamento na madrugada de hoje. — Isso mina os esforços de paz e destrói os formatos de negociação existentes.

Horas antes da reunião do Conselho de Segurança russo, os líderes das duas regiões separatistas foram à TV pedir a Putin para reconhecê-las como independentes. Todas as ações do lado russo se encaixam em um padrão previsto por governos ocidentais, que acusam a Rússia de se preparar para fabricar um pretexto para invadir a Ucrânia, culpando Kiev pelos ataques e contando com pedidos de ajuda de representantes separatistas.

“A Ucrânia moderna foi inteiramente criada pela Rússia, mais precisamente, pela Rússia bolchevique, comunista (...) Como resultado da política bolchevique, a Ucrânia soviética surgiu, e hoje há uma boa razão para que seja chamada de ‘Ucrânia de Vladimir Ilyich Lenin’. Ele é seu autor e arquiteto”

“Se a Ucrânia se juntasse à Otan, ela serviria como uma ameaça direta à segurança da Rússia”

‘SÃO CIDADÃOS RUSSOS’

O reconhecimento da independência das regiões constitui o fim dos Acordos de Minsk, negociados em 2015 com mediação da Alemanha e da França. Os acordos previam um cessar-fogo nas duas regiões, que receberiam autonomia administrativa. Os acordos eram considerados o quadro de referência para quaisquer futuras negociações sobre a crise no Leste ucraniano.

Na reunião do Conselho de Segurança russo, o ex-presidente e ex-premier Dmitry Medvedev foi o primeiro a pedir o reconhecimento da independência das regiões separatistas. Ele afirmou que as pessoas ali “não são apenas falantes de russo, e sim cidadãos russos”. Nos últimos anos, a Rússia deu cidadania a grande parte da população local, oferecendo-lhe passaportes.

Putin perguntou se havia alguma opinião divergente, ao que se seguiu um profundo silêncio. Houve sugestões, como“dardoisd ias” ao presidente dos EUA, Joe Biden— opção descartada por Putin e pelo chanceler Sergei Lavrov.