VALOR ECONÔMICO, n 5418, dias 15,16 e 17 de Janeiro de 2022, Finanças, C5

Dívida global com rendimento negativo recua para US$ 10 tri

Kate Duguid e Tommy Stubbington

 

O encerramento gradativo da política monetária da era da pandemia derrubou os níveis mundiais de dívida com taxa de retorno negativa para US$ 10 trilhões pela primeira vez desde abril de 2020. Os preços dos bônus governamentais em todo o mundo têm caído desde o início deste ano, à medida que os investidores se preparam para que os bancos centrais aumentem as taxas de juro e encerrem as compras de ativos em grande escala na tentativa de conter a inflação em alta.

As taxas de retorno dos bônus - que sobem à medida que os preços caem -, por sua vez, saltaram para seu patamar mais alto desde antes de a pandemia do coronavírus se espalhar em muitos mercados.

Na zona do euro e no Japão, parcelas de dívida do governo têm sido negociadas com taxas de retorno inferiores a zero nos últimos anos - um cenário que ocorre quando os preços sobem tanto que os investidores têm certeza de que perderão dinheiro se mantiverem seus bônus até o vencimento. Mas uma queda nos preços dos bônus fez muitas dessas taxas de retorno voltarem a ser positivas.

“Isso é um reflexo da mudança dos tempos e do cenário da política monetária”, afirmou Kristina Hooper, estrategista-chefe de mercado mundial da Invesco US. “Uma redução na dívida com taxa de retorno negativa é um símbolo desse desejo de voltar ao normal”, disse.

No fim de 2020, o montante de dívida com taxa de retorno inferior a zero disparou para US$ 18,4 trilhões, segundo um índice de renda fixa da Bloomberg que é acompanhado atentamente, já que os bancos centrais compraram grandes blocos de bônus soberanos para escorar os mercados atingidos pela pandemia. Algumas dívidas corporativas têm taxas de retorno negativas, mas a maioria desses bônus é emitida por governos.

O valor da dívida com taxa de retorno negativa caiu para menos de US$ 10 trilhões em 7 de janeiro e permaneceu abaixo desse nível até o dia 12, quando voltou aos poucos para a casa dos US$ 10 trilhões. Um movimento de venda de bônus do Tesouro dos Estados Unidos, iniciado em dezembro, teve um papel importante na redução da pilha mundial de dívida com taxa de retorno negativa - embora os custos de tomada de crédito nos Estados Unidos só tenham ficado negativos por um breve período em algumas dívidas de curto prazo - por causa da tendência dos principais mercados de bônus do mundo a se moverem em conjunto.

As taxa de retorno dos bônus do Tesouro subiram para seus níveis mais altos desde o início da pandemia quando o Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA) anunciou que encerraria suas compras de ativos mais rapidamente e indicou que pode estar preparado para começar a reduzir o tamanho de seu balanço patrimonial, o que empurrou as taxas de retorno para cima em todo o mundo.

“Temos um Fed ansioso para começar a remover suas ferramentas experimentais de política monetária”, disse Hooper. “Ele até quer começar a encolher seu balanço patrimonial este ano.”

Os investidores também reagiram à redução planejada pelo Banco Central Europeu (BCE) no ritmo de seu programa de compras de ativos, anunciada no mês passado, e até passaram a apostar que as taxas de juro da zona do euro podem subir em 2022.

Na semana passada, a taxa de retorno do bônus de dez anos da Alemanha subiu para seu nível mais alto em quase três anos e ficou apenas um pouco abaixo de zero, enquanto os custos de tomada de crédito de longo prazo de Berlim se tornaram positivos.

Uma inflação alta na área do euro “levará o mercado a se mover preventivamente nessa direção”, segundo Sonal Desai, diretora de investimentos para a área de renda fixa da Franklin Templeton.

Mesmo no Japão, onde a expectativa é a de que o banco central mantenha as taxas de juro em -0,1% no futuro próximo, os custos de tomada de crédito aumentaram. Na última semana, a taxa de retorno do bônus de sete anos do governo ficou acima de zero pela primeira vez desde abril.

No geral, a quantidade de dívida com taxa de retorno negativa caiu em US$ 2 trilhões desde o início do ano. Agora a dívida com taxa de retorno negativa representa cerca de 18% do índice de bônus Bloomberg Global Aggregate, em comparação com 30% há um ano, em uma mudança que alguns investidores consideram como o início de uma volta à normalidade nos mercados de bônus.