O GLOBO, n 32.342, 23/02/2022. Política, p. 4

POLITIZAÇÃO DA POLÍCIA

Gabriel Sabóia


Bolsonaristas apoiam motim de agentes em Minas e pressionam Zema

Um dos temas que mais preocupam os governadores na eleição deste ano, a insubordinação de policiais, incentivada por apoiadores do presidente Jair Bolsonaro, ganhou corpo em Minas Gerais. Sete deputados alinhados ao bolsonarismo participam diretamente das decisões dos agentes de segurança pública que cruzaram os braços na última segunda-feira. A categoria é uma das principais integrantes da base do presidente da República. Policiais e bombeiros pressionam o governador Romeu Zema (Novo) a conceder reajuste salarial.

Zema foi eleito em 2018 na onda do bolsonarismo, mas, ao longo do mandato, não manteve alinhamento automático ao presidente. No início do mês, ele se reuniu com o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) para discutir uma aliança. Tanto o governador quanto o presidente pretendem disputar a reeleição. Zema, no entanto, também tem sido cortejado pelo presidenciável do Podemos, Sergio Moro.

Uma reunião realizada ontem, em Belo Horizonte, na qual policiais civis e militares, bombeiros, agentes socioeducativos e policiais penais decidiram os novos rumos da paralisação, contou com a presença de sete parlamentares bolsonaristas, que ocupam cadeiras na Assembleia Legislativa de Minas e na Câmara dos Deputados, em Brasília. No encontro, realizado no Clube dos Oficiais da PM, ficou acordada, por exemplo, a suspensão das visitas íntimas e de familiares em penitenciárias mineiras, o que pode desencadear rebeliões. A população carcerária de Minas é a segunda maior do país.

Neste ano eleitoral, governadores de 17 estados já deram aumentos salariais ou enviaram para debate nas assembleias propostas de reajuste para agentes de segurança pública. Nas dez unidades da federação restantes, há acenos diversos, como projetos de reestruturação de carreira, compra de equipamentos e aumento de efetivo.

Em paralelo, Bolsonaro, que viu o Congresso aprovar semana passada uma Medida Provisória do governo que ampliou o crédito para integrantes das forças de segurança comprarem imóveis, planeja enviar um texto que amplia a “retaguarda jurídica”, pleito antigo de agentes envolvidos em operações. Segundo estimativa do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o universos das forças de segurança tem cerca de 18 milhões de pessoas, somando servidores da ativa e da reserva, cônjuges e filhos.

Estiveram presentes na reunião em Belo Horizonte os deputados estaduais Sargento Rodrigues (PTB), Coronel Sandro (PSL), Delegada Sheila (PSL) e Heli Grilo (PSL).

Os deputados federais Subtenente Gonzaga (PDT), Junio Amaral (PSL) e Léo Motta (PSL) também participaram dos debates sobre a redução de trabalho dos agentes de segurança. Todos eles também foram à manifestação realizada na segunda-feira e se mostraram favoráveis ao motim.

—Ficou decidido que o movimento de paralisação vai agir constitucionalmente, sem parar por completo, já que policiais não podem fazer greve. Mas orientamos todos a fazer a “operação tartaruga”. Os policiais penais decidiram hoje (ontem) pelo cancelamento das visitas íntimas e também de familiares. Isso pode gerar o caos. Será que vai haver uma rebelião? O governador precisa dialogar com a categoria — diz o sargento Marco Antônio Bahia, vice-presidente da (Associação dos Praças Militares e Bombeiros de Minas Gerais (Aspra).

No site da Aspra, é possível ver mostras de alinhamento a Bolsonaro. Em uma publicação de maio do ano passado, a associação se diz “apoiadora do presidente Bolsonaro e favorável ao voto impresso e auditável”.

Questionado, Bahia negou, no entanto, influência política nas decisões do movimento encabeçado pela Aspra:

— Nesse sentido, de defender a causa dos profissionais de segurança, somos apartidários, independentemente de qualquer manifestação anterior.

PRESSÃO SOBRE ZEMA

Um dos parlamentares mineiros mais próximos de Bolsonaro, Junio Amaral diz que os policiais tomarão medidas para forçar o diálogo com o governo do estado.

—São anos de indiferença (do governo de Minas) e desprestígio à segurança pública —afirmou.

As forças de segurança reivindicam aumento salarial para corrigir as perdas com a inflação. Em 2020, Zema enviou projeto à Assembleia Legislativa que previa recomposição de 41% para os profissionais, a ser paga em três parcelas. No entanto, depois de aprovado pelo Legislativo, somente a primeira parcela foi paga. O governador vetou as duas últimas.

Em nota, o governo de Minas informou que Zema conduziu ontem uma reunião com comandantes das forças de segurança para buscar soluções. No texto, o governo do estado reitera que reconhece a necessidade de reposição salarial, “mas com responsabilidade e previsibilidade fiscal”.