VALOR ECONÔMICO, n 5419, dia 18/01/2022, Finanças, C2

Inflação e questão fiscal voltam a pressionar ativos

Victor Rezende, Marcelo Osakabe e Gabriel Roca

 

Os novos sinais de piora na dinâmica das expectativas de inflação de médio prazo, que voltaram a subir no Boletim Focus, e as discussões sobre reajustes salariais de servidores levaram os juros futuros a um fechamento em forte alta no pregão de ontem. Assim, apesar da liquidez bastante reduzida nos mercados de renda variável e câmbio, devido ao feriado de Martin Luther King nos Estados Unidos, investidores realizaram lucros na bolsa e o dólar voltou a subir, após quatro sessões de baixa.

O principal índice de referência das ações brasileiras foi negociado em baixa durante todo o dia e encerrou o pregão em desvalorização de 0,52%, aos 106.373,87 pontos. Já o dólar comercial fechou em alta de 0,24%, negociado a R$ 5,5261.

Devido ao feriado nos EUA, o volume de negócios dentro do Ibovespa foi de apenas R$ 11,55 bilhões, segunda menor marca desde o início de 2021. Como comparação, a média anual diária no ano passado foi de R$ 23,5 bilhões. Cenário semelhante foi visto no mercado de câmbio, em que o giro do contrato para fevereiro do dólar futuro foi de R$ 30,5 bilhões, menos da metade da média diária dos primeiros dez pregões de janeiro, de R$ 61,4 bilhões.

No mercado de juros, por outro lado, o dia foi de estresse. A taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2023 subiu de 11,95% para 12,02%, enquanto a do DI para janeiro de 2027 escalou de 11,14% para 11,38%.

Segundo o Boletim Focus divulgado ontem, o ponto-médio das estimativas para o IPCA de 2022 passou de 5,03% para 5,09%, ao mesmo tempo em que a mediana das projeções para a inflação de 2023 subiu de 3,36% para 3,40%. Como o horizonte relevante para a política monetária, no momento, abarca os anos de 2022 e de 2023, o avanço das expectativas inflacionárias acendeu um sinal de alerta.

“Desde o discurso ‘hawkish’ [inclinado ao aperto monetário] do Banco Central na reunião de dezembro, só vimos movimentos de queda nas expectativas do Focus ou, no máximo, de estabilidade. Mesmo que seja algo pequeno, a alta da projeção mediana do IPCA de 2023 mostra uma direção altista. As expectativas não tinham nem se ancorado ainda e já voltaram a subir. Foi um movimento estranho e a direção de alta assusta”, avalia a estrategista-chefe da MAG Investimentos, Patricia Pereira.

Enquanto o avanço das expectativas de inflação influenciou, em especial, os vértices curtos e intermediários da curva, o mercado voltou a exigir mais prêmios de risco na ponta longa, onde as taxas exibiram alta expressiva. O movimento vem na esteira de um aumento do risco fiscal, às vésperas de uma paralisação de servidores públicos federais em meio a discussões sobre reajustes salariais. “O mercado, hoje, não pensa que haverá reajuste para quem quer que seja. Depois da PEC dos Precatórios, que abriu espaço no teto, um novo furo por qualquer questão teria uma reação muito ruim dos preços dos ativos”, diz Pereira.

O cenário voltou a pressionar as ações ligadas ao setor financeiro não tradicional e varejistas eletrônicas. Os papéis preferenciais do Banco Pan caíram 3,23%, enquanto as units do Banco Inter perderam 3,10%. As ações ordinárias do Magazine Luiza recuaram 3,32%, enquanto as da Via fecharam em queda de 1,76%.

Os investidores também avaliaram os dados de crescimento da China, que apontaram para uma desaceleração no último trimestre de 2021, e acompanharam a nova rodada de flexibilização monetária do banco central do país (PBoC). “Mais que os dados de atividade, acredito que o corte de juros pelo PBoC dá um viés positivo para moedas emergentes, via commodities”, diz Cristiane Quartaroli, economista do Ourinvest. “Só que hoje [ontem] o impacto ainda é pequeno, acredito que pela baixa liquidez pelo feriado nos EUA.”

Apesar do vento favorável, Quartaroli se diz cética quanto à continuidade da queda do dólar no Brasil. “Acredito que o fiscal pode voltar a pesar. Existe toda uma preocupação com essa questão do reajuste de servidores, e um aparente desencontro entre o presidente e o ministro da Economia. Isso pode acabar freando essa melhora que se vê no câmbio”, pondera, lembrando ainda que o ano eleitoral coloca uma outra camada de incertezas sobre o mercado.