O GLOBO, n 32.343, 24/02/2022. Brasil, p. 10

Perda de renda de agricultores pode chegar a R$ 70 bilhões

Eliane Oliveira e Bruno Alfano


“Nunca passei por uma situação dessa, de não ter colheita", diz produtor

Um levantamento da Confederação de Agricultura e Pecuária aponta que, com a seca no Mato Grosso do Sul, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, produtores dos quatro estados poderão ter uma perda de renda superior a R$ 70 bilhões. O prejuízo seria consequência da redução de cerca de 24 milhões de toneladas na colheita de produtos como soja, milho, arroz e feijão, em relação ao potencial projetado em dezembro. Os agricultores do Rio Grande do Sul serão os mais prejudicados, de acordo com a CNA.

Na propriedade de Nardelli Cassel, de 62 anos, em Santo Ângelo (RS), todos os 130 hectares de soja foram desperdiçados. A produção de milho caiu de 140 sacas por hectare para 25 sacas.

Cassel, que toca a propriedade com o filho, Cristiano, diz que os produtores precisam de uma prorrogação de crédito para pelo menos uma safra, o que recuperaria os prejuízos.

— Tenho 62 anos e nunca passei por uma situação dessa vida, de não ter colheita —afirma o produtor.

Nos quatro estados atingidos, o milho deverá ter uma redução de 5,2 milhões de toneladas. O potencial inicialmente previsto era de 13, 3 milhões de toneladas.

No caso da soja, a situação é mais grave: a estimativa de safra de 57,5 milhões de toneladas nos quatro estados caiu para 38,6 milhões, com perdas financeiras projetadas em R$ 62 bilhões. A pior quebra de safra, de 7,7 milhões de toneladas, deverá ser no Paraná.

Prato tradicional do brasileiro, a dupla feijão com arroz também será atingida pela estiagem. A perda estimada para o feijão é de 125 mil toneladas, com prejuízo de R$ 610 milhões. O arroz terá uma produção 740 mil toneladas inferior e os produtores terão uma renda menor em R$ 859 milhões.

— Com esses números, a safra de grãos do Brasil não chegará a 300 milhões de toneladas, como se esperava — disse o coordenador de produção agrícola da CNA, Maciel Silva.

— Em março, teremos um quadro mais claro, com o fim da colheita.