O GLOBO, n 32.343, 24/02/2022. Brasil, p. 11
“Cidade pepita'', Itaituba reúne os dilemas do garimpo na Amazônia
Eduardo Gonçalves
Prefeito que já extraiu ouro prometeu regular a atividade depois de operação da PF que tentou suspender em Brasília
A 1.300 quilômetros de Belém e 1.100 da antiga Serra Pelada, Itaituba (PA) é o centro da nova corrida do ouro no Brasil. O município, na Bacia do Rio Tapajós, é campeão na concessão de lavras pelo governo federal nos últimos quatro anos — mais de 25% de todos os requerimentos. As contradições ligadas à atividade foram expostas na semana passada na cidade, por uma operação contra o garimpo ilegal e a reação dúbia de seu prefeito, Valmir Clímaco (MDB). Ao mesmo tempo em que anunciou medidas de controle da atividade — inclusive fiscalizar um documento expedido pela prefeitura que era aproveitado na extração irregular —o ex- garimpeiro (e dono de lavras que diz serem “todas legais”) foi a Brasília tentar parar a operação.
A operação Caribe Amazônico, da Polícia Federal, Ibama e das Forças Armadas, destruiu e apreendeu 21 escavadeiras, 26 motores de bombas, uma balsa, três geradores e um trator, em 14 acampamentos. Em reação, garimpeiros queimaram pontes de madeira e bloquearam o acesso à sede do ICMBio na cidade. Antes, ao serem flagrados, mostraram licenças de operação das prefeituras de Itaituba e Jacareacanga, distrito que foi emancipado em 1991. Para os agentes da PF e Ibama, as licenças são ilegais, por se tratarem de área de conservação da União.
Clímaco disse ao GLOBO que vai suspender todas as licenças concedidas pela prefeitura nos últimos anos para uma reavaliação.
— Demos mais de 500 e nunca fomos fiscalizar. Vamos suspender todos os documentos e eles só vão ser liberados com o aval do ICMBio e do Ministério Público Federal — afirmou, anunciando um projeto que vai criar um sistema de monitoramento de garimpos na região e “reeducar” os trabalhadores para não devastarem a Amazônia.
Questionado por que não fiscalizou antes, o prefeito respondeu que a prerrogativa é dos órgãos ambientais federais. Nos bastidores, há um receio de que a prefeitura entre na mira da Polícia Federal.
Apelidada de “Cidade Pepita”, Itaituba traz no hino o verso “os garimpos, as praias, a fonte”, tem como monumento uma estátua de 3 metros de um garimpeiro e um comércio quase todo voltado à atividade, com lojas de compra e venda de ouro, de retroescavadeiras e de tratores, além de um dos aeroportos mais movimentados do Pará. Clímaco se reelegeu em 2020 com o apoio dos garimpeiros.
NA CASA CIVIL
Enquanto a PF incendiava retroescavadeiras e acampamentos, Clímaco voou a Brasília para se encontrar com o ministro da Casa Civil, Ciro Nogueira. Segundo o prefeito, o objetivo era convencer o governo federal a suspender a operação. Para isso, levou “centenas” de vídeos enviados por seus companheiros do garimpo, mostrando as “cenas de terror” da ação policial.
O deputado federal José Priante (MDB-PA) foi com o prefeito ao encontro:
— As explosões pareciam produção cinematográfica. É uma política equivocada. Na hora em que se pega gado na floresta não se faz churrasco com ele — disse o parlamentar, apesar de a inutilização de equipamentos estar prevista em lei, quando não há como apreender.
Segundo o deputado e o prefeito, Nogueira prometeu levar a questão ao presidente Jair Bolsonaro para “paralisar esse tipo de operação”. Nogueira não comentou a reunião, que não consta na agenda oficial. No dia seguinte, no entanto, se encontrou com o ministro do Meio Ambiente, Joaquim Leite.
Clímaco diz que só não “ligou direto” para Bolsonaro porque “ele estava lá na guerra com a Rússia” (na verdade, em viagem ao país). Em maio de 2020, Bolsonaro elogiou Itaituba em uma live por abrir o comércio durante a pandemia.
A operação policial terminou na última sexta-feira. Ações como essa costumam não durar mais de uma semana, mas o prefeito procurou tirar proveito político.
— Conseguimos uma trégua para regularizar a situação —comentou.