Correio Braziliense, n. 22707, 22/05/2025. Política, p. 4
Ex-chefe da FAB relata reunião para o golpe
Maiara Marinho
O ex-comandante da Aeronáutica Carlos Almeida Baptista Junior confirmou, em depoimento ao Supremo Tribunal Federal (STF), que houve uma reunião com o então presidente Jair Bolsonaro, em 14 de novembro de 2022, na qual foi apresentada uma “minuta de golpe” aos chefes das Forças Armadas.
No encontro, segundo Baptista Junior, estavam o ministro da Defesa à época, Paulo Sérgio No gueira, e os então comandantes da Marinha, Almir Garnier, e do Exército, Freire Gomes. Nogueira teria dito que estava de posse de um documento, para análise dos chefes das Forças Armadas, que tratava sobre o estado de sítio no país. “Eu achava que não existiam os pressupostos básicos para o estado de sítio, não imaginava que fosse aparecer essa situação”, comentou no depoimento. Ele disse ter perguntado: “Esse documento prevê a não assumpção, no dia 1º de janeiro, do presidente eleito?”.
De acordo com o ex-comandante da FAB, nenhum dos presentes afirmou verbalmente que se tratava da “minuta do golpe”, mas ele entendeu que sim, pelo silêncio que houve no Salão Verde do Palácio do Alvorada. Baptista Junior relatou ter se levantado e ido embora, após afirmar que não admitia sequer receber o documento.
“Eu tinha um ponto de corte, que era o dia 1º de janeiro, dia da posse do presidente eleito. Não faço juízo de ideologia, é o processo democrático”, reiterou.
Baptista destacou que o general Freire Gomes também condenou a iniciativa, enquanto Garnier e Nogueira ficaram calados. “Depois que saí da reunião, não sei o que foi debatido”, afirmou.
Marinha
Ele relatou que, em outro encontro com a presença dos comandantes, Garnier colocou as tropas da Marinha à disposição de Bolsonaro para levar a cabo o golpe.
No depoimento, o ex-comandante da FAB detalhou as discussões internas no governo após a vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, incluindo pressões e alegações de fraude nas urnas eletrônicas.
“Eu estava convencido da lisura do processo eleitoral”, comentou Baptista, que disse ter mencionado isso a Bolsonaro em diversas ocasiões após o segundo turno.
Durante a avaliação de medidas para manter Bolsonaro no poder, trabalhou-se também a hipótese de acionamento da Garantia da Lei e da Ordem (GLO). Segundo Baptista Junior, Freire Gomes ameaçou, então, prender o presidente, caso o objetivo da GLO fosse impedir a posse de Lula.