O GLOBO, n 32.343, 24/02/2022. Mundo, p. 18
PUTIN ANUNCIA INVASÃO
Presidente da Ucrânia fez antes apelo para conter guerra, e país decretou emergência
O presidente Vladimir Putin anunciou na madrugada de hoje que a Rússia vai realizar uma operação militar no Leste da Ucrânia. O anúncio foi feito enquanto o Conselho de Segurança da ONU se reunia pela segunda vez nesta semana, com apelos dos países membros de que o país não lançasse a ação. O anúncio foi feito um dia após Moscou declarar que as auto proclamadas repúblicas de Donetsk e Luhansk haviam pedido ajuda para repelir “agressões” de Kiev, em meio a crescentes alertas dos EUA de que um grande ataque era iminente. O presidente Joe Biden, dos EUA, condenou a “injustificada” agressão à Ucrânia.
A invasão ocorreu depois de Moscou vetar voos sobre parte da região de Rostov, a Leste de sua fronteira com a Ucrânia, que, por sua vez, anunciou o “perigo potencial” para a aviação civil ao restringir o tráfego em seu espaço aéreo.
SEM RESPOSTA DO KREMLIN
Ontem, o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, havia feito um pronunciamento dramático de nove minutos na TV. Falando a maior parte do tempo em russo — e se dirigindo à população russa — pediu que a Rússia não invadisse o país.
— O povo ucraniano quer a paz — disse, citando a história comum das duas nações. — O governo ucraniano quer a paz e está fazendo tudo para construí-la.
Horas antes, o Parlamento ucraniano havia aprovado um estado de emergência após o governo adotar uma série de medidas de preparação para uma guerra, desde convocar reservistas a pedir para seus cidadãos deixarem a Rússia imediatamente.
Zelensky disse que chegou a sugerir uma reunião com Putin, mas, segundo ele, não houve resposta do Kremlin. O líder ucraniano afirmou acreditar que a Rússia já aprovara uma ofensiva contra seu país e declarou que, apesar de não buscar a guerra, vai se defender em caso de invasão.
—Dividimos uma fronteira de mais de 2 mil quilômetros. Quase 200 mil de seus militares e milhares de veículos estão parados ao longo dela. Sua liderança ordenou que seguissem adiante, invadindo o território de outro país — declarou. —Os russos querem a guerra? Adoraria ter resposta para essa pergunta. Mas a resposta só depende de vocês, cidadãos da Rússia.
O líder ucraniano, que vem fazendo comunicados em vídeo praticamente todos os dias, disse que não planeja qualquer ataque contra os separatistas pró-Rússia do Leste do país, e rejeitou as alegações, feitas inclusive por pessoas do governo russo, de que os ucranianos “são nazistas”.
Mais cedo, em entrevista, Zelensky havia pedido “garantias de segurança” à Rússia e sugerido as negociações diretas com Putin.
— A Ucrânia precisa de garantias de segurança claras e concretas, imediatamente. Creio que a Rússia deve estar entre os países que nos deem essas garantias. Já sugeri muitas vezes que o presidente da Rússia se sente à mesa de negociações —disse.
Acompanhado dos presidentes da Polônia e da Lituânia, o líder ucraniano pediu também que os países ocidentais —que já disseram que não combaterão ao lado dos ucranianos se houver uma guerra em grande escala — subam ainda mais o tom contra Moscou e disse que está organizando, em conjunto com a Europa, uma resposta “aos crimes cometidos pela Rússia”.
Na terça, Putin disse que a situação poderia ser resolvida se a Ucrânia abrisse mão da demanda de entrar na Otan e declarasse sua neutralidade, modelo semelhante ao adotado pela Finlândia durante a Guerra Fria. Putin disse ainda que a Ucrânia deve se desfazer de armamentos que recebeu da aliança militar ocidental.
Ontem, Putin, apesar das sanções anunciada na véspera pelas potências ocidentais, prometeu que não cederá às pressões e afirmou que “os interesses e a segurança” de seus cidadãos “não são negociáveis”.
O presidente russo falou em um breve discurso televisionado sobre o Dia do Defensor da Pátria. Ele disse, no entanto, estar “aberto ao diálogo direto” com os países ocidentais, mas sempre exigindo que a Ucrânia nunca seja admitida na Otan, o que ele considera um risco à segurança da Rússia.
ESPAÇO AÉREO FECHADO
A introdução do estado de emergência confere poderes especiais às autoridades, incluindo restrições ao transporte, envio de proteção adicional para instalações de infraestrutura essenciais e a proibição de greves. As autoridades regionais podem tomar decisões sobre a introdução de toque de recolher e outras medidas, disse Oleksiy Danilov, a principal autoridade de segurança do país.
Ele reiterou que a Ucrânia ainda não estava decretando uma mobilização geral nem lei marcial, com restrições mais duras. Desde o começo da crise, o governo ucraniano tenta transmitir mensagens de tranquilidade, em uma estratégia para conter danos à sua economia e evitar gerar pânico. Moscou começou a retirar seu pessoal diplomático de Kiev.