O GLOBO, n 32.343, 24/02/2022. Política, p. 7

Sigla ligada a Universal prepara desembarque

Bruno Góes e Eduardo Gonçalves


Presidente do Republicanos, Marcos Pereira diz que Bolsonaro 'só atrapalhou” formação de chapas e deixa aliança em aberto

O Republicanos, partido do Centrão e ligado à Igreja Universal, reforçou ontem os sinais públicos de insatisfação com o presidente Jair Bolsonaro (PL). O deputado federal Marcos Pereira (SP), presidente nacional da legenda, declarou que Bolsonaro “só atrapalha” as negociações para que o Republicanos atraia novos políticos na janela partidária.

Enquanto Pereira deixa em aberto o apoio à reeleição de Bolsonaro, integrantes do partido têm ameaçado nos bastidores um desembarque da coligação do atual presidente. Um dos focos de insatisfação, explicitado pelo deputado ontem, é a avaliação de que Bolsonaro tem procurado atrair aliados do governo para o PL, partido ao qual se filiou. Pereira defende que siglas da base governista, formada também por PP e Republicanos, precisam “dividir o bolo” de filiações para que todas as bancadas cresçam.

— (Estamos) trabalhando bem (para a janela partidária), acho que vai ser bom, vamos sair um pouco maiores. Sem a ajuda do presidente (Bolsonaro), por enquanto. Porque até agora ele só atrapalhou — criticou Pereira.

Em março, com a abertura da janela partidária, parlamentares poderão trocar de sigla sem perder o mandato. Na semana passada, como revelou a colunista do GLOBO Bela Megale, Pereira teve uma conversa dura com o senador Flávio Bolsonaro (PLRJ) devido à postura do presidente. Ele afirmou a Flávio que, além de não atrair nomes para o partido, Bolsonaro e seu entorno têm atuado para tirar nomes do Republicanos e levá-los ao PL.

Ontem, perguntado se o Republicanos ficará neutro na disputa presidencial, Pereira disse que o partido dará essa resposta “no momento oportuno”, e disse que “quem tem tempo não tem pressa”.

A insatisfação envolve também a falta de apoio do governo a candidaturas próprias do Republicanos. Na Bahia, por exemplo, onde o partido deseja lançar o ministro da Cidadania, João Roma, para concorrer ao Executivo estadual, o próprio Flávio reconheceu o impasse, em entrevista ao GLOBO. O senador defendeu uma composição com o também pré-candidato ao governo ACM Neto (União Brasil), rompido com Roma. Ontem, o ministro esteve na Câmara para conversar com correligionários e disse esperar uma reaproximação da sigla com Bolsonaro.

— Quem decide (sobre apoio na eleição) é o presidente (do partido, Marcos Pereira). Eu espero que a gente possa apoiar o presidente Bolsonaro —disse João Roma.

“SEM TEMPO”

Pereira colocou em dúvida ainda o posicionamento do governo em relação ao projeto que legaliza os jogos. Na terça, Bolsonaro enviou mensagens a parlamentares pedindo voto contrário ao projeto. O presidente do Republicanos disse que o partido se posicionará de forma contrária, mas afirmou que integrantes do governo trabalham a favor da proposta, mesmo com a indicação de Bolsonaro de que vetaria a legislação. Em caso de veto, a matéria volta para análise do Congresso, que pode mantê-lo ou derrubá-lo.

— Ouvi de algumas pessoas ligadas ao governo o pedido para apoiar. Porque, no fundo, eles são favoráveis. Só não querem se expor diante da população —disse o deputado.

Pereira também recorreu à ironia ao ser questionado se havia recebido a mensagem do presidente com o pedido de voto contrário.

— Não sei, não vi. Estou cheio de mensagens atrasadas. É que ele manda bastante mensagem. Eu olho quando tenho tempo.

O ACÚMULO DE INSATISFAÇÕES DO REPUBLICANOS

Crise da Universal em Angola

Em maio do ano passado, em meio a investigações e deportações de líderes da igreja que atuavam no país africano, o presidente do Republicanos, Marcos Pereira, que é bispo licenciado da Universal, classificou como “descaso” a postura do governo brasileiro com o episódio. Na tentativa de atenuar as críticas de Pereira e da Universal, Bolsonaro enviou o vice-presidente Hamilton Mourão para conversar com o governo angolano e tentou um aceno com a indicação do ex-prefeito do Rio, Marcelo Crivella, a embaixador na África do Sul. Porém, o nome de Crivella, sobrinho do bispo Edir Macedo, não foi aceito pelo país.

Interlocução com evangélicos

O relacionamento próximo de Bolsonaro com o pastor Silas Malafaia também já foi motivo de arestas com a Universal e com o Republicanos. Malafaia criticou o apoio da igreja de Edir Macedo à indicação de Kassio Nunes Marques para ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), quando um grupo de pastores defendia um nome “terrivelmente evangélico”. Aconselhado por Malafaia, Bolsonaro não quis se filiar ao Republicanos no ano passado — embora dois de seus filhos, o senador Flávio e o vereador Carlos, tenham feito este movimento em 2020— e optou pelo PL, o que também incomodou o partido.

Candidatura ao governo

O Republicanos tem mostrado insatisfação com o fato de Bolsonaro não endossar até agora a pré-candidatura do ministro da Cidadania, João Roma, nome colocado pelo partido ao governo da Bahia. O entorno do presidente ainda tenta uma composição com o pré-candidato do União Brasil, ACM Neto, rompido com Roma.

Assédio a parlamentares

Na avaliação de integrantes do Republicanos, Bolsonaro tem descumprido um pedido para que candidatos alinhados ao governo fossem distribuídos entre PL, PP e Republicanos, partidos do Centrão convidados para formar a coligação do presidente. Além de ignorar o Republicanos nas tratativas, Bolsonaro teria procurado parlamentares da sigla para que migrassem para o PL. O movimento irritou Pereira, que cobrou o senador Flávio Bolsonaro em conversa na semana passada, e ainda não obteve resposta.