O GLOBO, n 32.343, 24/02/2022. Mundo, p. 18
Capacidade militar da Rússia supera, e muito, a ucraniana
Filipe Barini
Apesar de inferiores, forças de Kiev tiveram avanços consideráveis desde 2014
Desde o começo do ano passado, quando a Rússia começou a reforçar suas posições nas fronteiras com a Ucrânia —nos primeiros passos da crise que atingiu seu auge com o reconhecimento por Moscou de duas regiões separatistas no Leste ucraniano — a possibilidade de invasão russa é tratada como real, mesmo com as negativas oficiais.
Caso o cenário se concretize, a diferença de forças entre os dois lados será brutal. A quantidade e qualidade dos equipamentos de Moscou é bem superior, e seu aprimoramento é parte da estratégia de Vladimir Putin de fortalecer o poder e a imagem da Rússia no mundo.
Nos primeiros anos do governo Putin, as Forças Armadas traziam o legado da crise dos anos 1990, com equipamentos defasados, tropas mal pagas e atrasados, em termos tecnológicos, em relação aos do Ocidente. O acidente com o submarino Kursk, em 2000, e problemas na segunda Guerra da Chechênia e na intervenção na Geórgia, em 2008, foram vistos como sinais de que uma mudança era necessária.
E ela veio: partindo do aumento dos salários, passando pela compra de meias e novos calçados para os soldados e chegando ao desenvolvimento de mísseis “hipersônicos” e caças de quinta geração. Para Putin, incrementar sua capacidade militar faz parte da estratégia de projeção de poder da Rússia no mundo.
Na Síria, os bombardeios ajudaram a deter o Estado Islâmico e também as forças de oposição a Basharal-Assad, aliado do Kremlin. Em janeiro, tropas chegaram, em questão de horas, ao Cazaquistão, como parte de uma força de paz para enfrentar os distúrbios no país. Agora, na Ucrânia, a presença de quase 200 mil militares na fronteira serve para pressionar o Ocidente a ouvir as demandas de segurança regional feitas por Putin.
RESISTÊNCIA
Neste cenário, não há muito o que fazer, do lado ucraniano, caso o Kremlin dê o sinal verde para um ataque: seu número de soldados prontos para o combate e de meios defesa é bem inferior aos dos russos, que também poderiam usar a superioridade aérea e ações contra sistemas de comunicação para evitar reações.
Vale ressaltar que, por culpa da própria Rússia, as Forças Armadas ucranianas, com forte apoio estrangeiro, evoluíram desde 2014, ano da anexação da Crimeia e do início da guerra no Leste do país. Apenas os EUA forneceram US$ 2,5 bilhões em assistência de segurança, incluindo treinamentos e armamentos, como os mísseis Javelin.
A Lituânia também ofereceu outro modelo de míssil portátil, os Stinger, marcados pelo papel que tiveram na Guerra do Afeganistão (1979-1989): a arma, fornecida aos mujahedins, foi responsável por derrubar dezenas de aeronaves soviéticas.
Outras nações da Otan intensificaram o envio de equipamentos defensivos e financiaram iniciativas como a construção de hospitais. Boa parte da população tem treinamento militar, e poderia organizar forças de resistência, ao lado de paramilitares .
Há que se mencionar os drones Bayratkar TB2, fabricados pela Turquia, um membro da Otan. A aeronave é usada desde 2019 contra os separatistas pró-Rússia e gerou reclamações de Putin, que via seu uso em combate como uma provocação. Para especialistas, o drone pode ser eficaz em alguns tipos de ações, como contra forças de menor poder ofensivo, mas provavelmente não faria diferença imediata em uma invasão russa.