Correio Braziliense, n. 22707, 22/05/2025. Economia, p. 7

Indústria avícola tem prejuízos com suspensões de compras

Fernanda Strickland


Chegou a 21 o número de países que anunciaram a suspensão total das importações de carne de frango brasileira. Segundo informou, ontem, o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), outros 39 optaram por restrições regionais, concentradas no estado gaúcho ou especificamente no município afetado.

Entre os países que interromperam completamente as compras estão grandes parceiros comerciais como China, União Europeia, Coreia do Sul e México, além de Canadá, Chile, África do Sul e membros da União Euroasiática. Já países como Japão e Arábia Saudita restringiram as importações apenas ao município de Montenegro.

Ao Correio, o presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), Ricardo Santin, ressaltou que ainda é cedo para estimar prejuízos financeiros concretos. “Esses números seriam conjecturas ainda difíceis de fazer. As empresas têm alternativas como redirecionamento para outros mercados, armazenamento ou destinação ao mercado interno”, explicou Santin, em entrevista. Apesar da incerteza quanto ao impacto econômico direto, Santin afirmou que o setor já enfrenta custos logísticos adicionais. “Estamos tendo que redirecionar rotas, trocar navios, encontrar espaços em armazéns não planejados. São prejuízos logísticos que já sentimos”, pontuou.

O presidente da Abpa também pediu parcimônia na leitura do cenário. “Alguns países que suspenderam não têm relevância comercial, como Sri Lanka e Paquistão, que sequer compram do Brasil. Dos 151 mercados para os quais exportamos, apenas 21 fecharam totalmente. A maioria manteve restrições localizadas ou continua operando normalmente”, disse.

Segundo o Mapa, o foco foi rapidamente controlado e as autoridades sanitárias brasileiras estão atuando de forma transparente com os países importadores.

O órgão ressaltou que o vírus não é transmitido pelo consumo de carne de frango e que as suspensões são preventivas, seguindo os protocolos internacionais da Organização Mundial de Saúde Animal (OMSA).

A influenza aviária foi registrada no Brasil pela primeira vez em 2023, inicialmente em aves silvestres. A ocorrência atual em aves comerciais acendeu o alerta, mas também mostrou uma resposta ágil por parte das autoridades.

Para evitar novos focos, o setor reforça medidas de biosseguridade, principalmente nas granjas e fábricas de ração. “Se houver respeito ao vazio sanitário e aos protocolos de limpeza, não há risco de transmissão”, reforçou o presidente da ABPA.

A expectativa agora é de que, com o envio de relatórios técnicos à OMSA na próxima semana e a intensificação dos diálogos diplomáticos, os mercados comecem a ser reabertos gradualmente. Enquanto isso, o setor segue mobilizado para garantir que o impacto seja o menor possível.

“É um momento de apreensão, mas também de superação. O setor é resiliente, os produtores são resilientes, e vamos passar por isso com responsabilidade e transparência”, concluiu Santin.

Especialistas avaliam que a situação é uma ameaça diretamente a um setor que movimenta mais de R$ 60 bilhões por ano e responde por 5% de tudo o que o Brasil exporta.

“A crise revela tanto a vulnerabilidade quanto a força de reação do setor. Os efeitos econômicos são inegáveis, e podem ser ampliados caso o episódio se prolongue ou ganhe novos focos em estados como Santa Catarina ou Paraná, que concentram 40% da produção nacional”, comentou o economista Fabio Ongaro.